Publicado originalmente em Observatório de Jornalismo Cultural – OBJORC. Para acessar, clique aqui.

Écom esta rima pobre que quero tratar da controvérsia em torno de uma das mais profícuas tendências (tendência?) da literatura brasileira contemporânea: a não-poesia.

A poesia sempre esteve associada a um tipo de prática de linguagem que consiste numa certa ritualização da experiência.

A poesia é uma esquiva, muitas vezes tomada como antídoto ao realismo do real, porque curto-circuita o acordo tácito entre signo e referência, entre o discurso e os significados habituais que o uso cotidiano da língua atribui a eles.

De certo modo, toda poesia é uma espécie de milagre advindo de um delírio.

O poeta nunca está em face das coisas simplesmente, mas de um mundo rico em profusão de sentidos, que o permite ver além e aquém do que os reles mortais veem e vivem.

Ah a POESIA!, a não-poesia considera uma grande… balela.

Descarta os fundamentos que a tradição literária atribui ao texto poético: conotação, metáfora, ritualização da linguagem, e que definem a própria literatura, como na conhecida frase de Ezra Pound: “literatura é linguagem carregada de significado”.

E onde eles mais estão carregados? Na poesia.

É este “carrego” que a anti-poesia contemporânea recusa.

Fátima Bernardes e a internet, “livros livros à mancheia”, estão prenhes de poetas não-poetas. De poemas que mais parecem ser a descrição de um encontro com as coisas colocado em verso, o amor aos gatos ou uma pasta de dentes, do que propriamente… poesia.

A notação da vista de um pôr do sol, com ou sem sax, um silogismo de efeito, uma frase aparentemente sabida, cortada pra virar um quarteto, um par de rimas internas pra revelar a dor do desmatamento da Amazônia num rápido terceto…

Mas também, no meio disso tudo, uma referência a Francis Ponge, ao cinema francês ou italiano, é a face “acadêmica” (embora essa não seja a palavra que eu esteja procurando) desta profícua profusão de não-poetas.

Atestam o interesse por ela, as traduções recentes no brasil de autores como Nicanor Parra e Wisława Szymborska, tão diferentes entre si mas tendo em comum abolir a ritualização da linguagem própria da poesia.

A não-poesia é em tudo diferente da grande tradição da poesia crítica, tradição que podemos situar entre 2 augustos, o dos Anjos — “Tome, Dr., esta tesoura, e… corte / Minha singularíssima pessoa” -, e o de Campos, com seus grandes livros de poesia crítica, Despoesia Não.

Um exemplo da melhor leitura desta tradição, cujo vértice é a obra de João Cabral, é A metáfora crítica de João Alexandre Barbosa.

“Câmera lenta”, o premiado livro de Marília Garcia, seria não só um exemplo da não-poesia, seu manifesto.

De minha parte, me-incomoda esse enlace, porque a poética de Marília Garcia é radicalmente outra coisa, sem deixar de ser, em muitos aspectos, esta mesma.

Se incorpora os fundamentos da não-poesia, o faz em diálogo com o que estou chamando de poesia crítica, dotando-a de outra dimensão.

1. Câmera lenta: não-poesia

Publicado pela Companhia das Letras em 2017, Câmera lenta é um livro difícil, difícil de ler e difícil de colocar na prateleira da poesia, esse bicho que tanto amamos odiar.

Em princípio, e para um leitor mal humorado, a poesia está nele pela mera institucionalidade do livro-de-poemas posto numa catalogação que fará o bibliotecário ou o livreiro colocá-lo na estante dedicada aos estudantes de letras ou à essa gente esquisita e rara que lê livros de poemas.

Diferente do que convencionalmente se atribui à poesia, trata-se de um livro de poesia com os pés e o corpo todo na prosa. E que não é poema em prosa nem prosa poética, porque tanto o poema em prosa quanto a prosa poética têm os pés e o corpo todo na poesia.

Câmera lenta nos ajuda, inclusive, a pensar o caráter artificial desta dicotomia, poesia/prosa.

A esse respeito, vale evocar o importante O fim do poema de Giorgio Agamben. Nele, o filósofo italiano sugere retomar no enjambement a tensão entre poema e prosa, na medida em que com ele, com o seu transbordamento para além do próprio verso, se problematiza a articulação habitual entre som e sentido, entre semântica e sintaxe.

Câmera lenta faz do enjambement seu princípio de composição.

Ele recorta e dota de sentido novo passagens que de outro modo não difeririam de um parágrafo qualquer de uma prosa comum, como neste fragmento: “estou no 20º andar de um prédio/ que dá para uma antena./ quando cheguei, pensei que fosse um ano/no futuro com tanto arranha-céus/ prateados jogando luzes por todo/ canto, mas a cidade é baixa por causa/ dos terremotos, é cheia de ruínas/ e construções de pedra vermelha,/ todas as paredes de um tom/ avermelhado, vermelho-escuro/ e fechado.”

O corte cria fragmentos que se autonomizam, potencialmente capazes de gerar significação nova ou não pressuposta, ao mesmo tempo que põem a leitura num andamento que tira o leitor do passo firme e linear, sem pedras no caminho, da prosa.

Livre do milagre advindo do delírio que define a poesia, através do enjambement, o poema também recusa o conforto da prosa, faz seu passo andar em falso.

Chama atenção na leitura do livro, a impressão de que muitos poemas, se colocados na paragrafação da prosa, poderiam funcionar como contos, mas tal impressão logo se desvanece porque não há entrechos fortes que liguem as ações e os fatos narrados.

O que há são quase sempre reflexões sobre os acontecimentos como potencialidades (retomarei esse ponto adiante).

Tomo 2 fragmentos de “Aqui começa um loop”:

“no dia 1,

ela disse:

“aqui começa o loop”

e aquele era o começo.

ficava no escuro sublinhando as palavras

em vermelho

e recortando os começos.

o primeiro era este:

“aqui começa o loop”.

“no dia 3,

estou sentada num trem

e penso: como se começa uma conversa

com alguém?

estava nisso quando ele disse

de qual terminal sai o seu voo?

e eu perguntei: o quê?”

Lidos assim, fragmentados e retirados do contexto do livro, os poemas perdem muito de sua densidade, das questões que levanta sobre a própria poesia, na medida em que tais reflexões são também embates sobre as possibilidades da relação entre poesia e cotidiano.

A poesia como afazer, como processo de construção, é um dos temas do livro. Ler e escrever poesia como prática viva e vivida: “olho agora para este texto que digito./ como ver alguma coisa aqui?/ tento me fixar no desenho das letras,/ o papel do livro.”

O poema sempre revela uma consciência midiológica, consciência que não apenas vive o que descreve, mas observa seu próprio olhar sobre o vivido, daí o diálogo com a fotografia e o cinema.

A noite americana de Truffault, que reflete sobre os processos de construção de filmes e de seu entorno nas vidas dos envolvidos, é referido mais de uma vez.

Não há locação simples, tudo é mediado, toda realidade está envolva numa névoa de linguagem e de máquinas, sendo o poema uma delas. Uma névoa que embota sua própria poeticidade, daí a indecidibilidade entre poesia e prosa.

2. Câmera lenta: poesia crítica

Câmera lenta é um livro sobre o tempo e, talvez o que revele mais sua singularidade, sobre a história.

Ele traz uma complexa notação do tempo. Ora como corte, propiciado em parte pelo enjambement, criador de um ritmo que difere da aceleração do cotidiano. Ora como tempo cronológico que demarca mais intensidade que passagem.

Como neste fragmento de

“Tem país na paisagem?”:

“por fim, vou até ela:

hoje é dia 13 de novembro

e saio de casa às 9h55.

quando chego ao rio,

sinto um vento nas costas

e lembro do fantasma que ronda a ponte.

ela era casada com um homem

que estava na guerra

e teve um amante que lutava

pelo país inimigo.

contam que, em uma noite de inverno,

uma noite fria e escura,

ela ficou na ponte esperando o amante

durante muitas horas

e ele não veio.

ela morreu congelada

ou caiu no rio”.

Trata-se de um tempo intensivo mas que é também impreciso, apesar da notação, pelo enlace que estabelece com outros tempos e com outras vozes ou perspectivas sobre os mesmos fatos, daí a sensação de estar-se sempre num futuro do pretérito, em um mundo de possibilidades.

É por aqui que se imiscui a própria história, a história não só como o olhar pro passado, mas também como virtualidade.

Em quase todos os poemas, por sob a superfície do que efetivamente acontece, há alguma coisa por acontecer ou já acontecendo para além do que está posto: “todos os dias agora/ um novo vocabulário se espalha./ todos os dias tento entender/ o que as pessoas dizem/ seria [terrorismo] ou [terremoto]?/ todos os dias agora/ uma linha de sombra/ por onde passo e aquela/ poeira cinza/ e colante”.

Ou: “um dia/ ele me diz:/ ‘coisas acontecem depois’/ e era uma espécie de deixa./ você pensa que é como/ o fim da linha, como chegar atrasado/ sem saber o que fazer para consertar/ o engano./ alguma coisa acontecerá depois

A consciência da complexidade do tempo e dos muitos possíveis da história não deixa que as coisas aconteçam simplesmente.

É nessa relação complexa com o tempo e a história que entendo o dialogismo, a troca de vozes e a mudança de perspectiva dentro de um mesmo poema, um dos melhores achados do livro e parte da dificuldade de sua leitura.

Eu, tu e ele dançam numa rede de falas que muitas vezes se repetem, mas em outra boca, não raro em lugares de passagens, pontes, estações, aeroportos.

Repita-se, em Câmera lenta não há locações simples, nem do tempo, nem da história e, por extensão, da própria poesia.

Por isso que situo a poética de Marília Garcia num lugar produtivamente paradoxal, ao mesmo tempo dentro e fora desta contemporânea não-poesia, com sua profusão de poemas ruins.

Câmera lenta é crítica da poesia e poesia crítica.

Campina Grande, 17 de Março de 2021

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