Rosário, um pedacinho da África em Oeiras: uma história para além da eurocêntrica, na primeira capital do Piauí

Publicado originalmente em O Estado do Piauí por Luana Sena e Vitória Pilar. Para acessar, clique aqui.

A estrada íngreme dá conta de que estamos em um dos pontos mais altos da cidade, afundada entre vales e colinas. Do alto se avista a vida acontecendo – um homem arruma o telhado, uma senhora varre o chão, duas mulheres põem cadeiras na calçada no fim de tarde para prosear. Todos eles têm algo em comum: trazem consigo, na cor da pele, uma vivência que parte da história não foi capaz de contar. Oeiras é uma cidade negra.

O bairro do Rosário – os moradores chamam “Rusário”, assim, com pronúncia de U – é o bairro mais antigo da cidade de Oeiras e, por isso mesmo, do Piauí. Como todo bairro de origem no Brasil colônia, nasce ao redor de uma capela: a igreja Nossa Senhora do Rosário. As ruas e o casario secular denunciam 300 anos de história, quando a pequena vila às margens do Riacho Mocha, com extensas fazendas de gado, é tomada por padres jesuítas no século XVIII. Ali está a Casa da Pólvora, um testemunho bélico da luta pela independência, às margens do Pouca Vergonha. Há também o Pé de Deus e Pé do Cão, “o sinal de um pé, o qual nem beijos piedosos, nem as chuvas de inverno conseguiram apagar”, descreveu O. G Rego de Carvalho.

Rosário: palácio e capela. Visão recriada com base na planta de 1809 (Digitalizada do livro “Passeio a Oeiras”, 6ª edição)


A história, sabemos, é sempre contada pelos de cima. Na obra de estreia de O. G. Rego, por exemplo, Ulisses é guiado à saída da igreja pela “criada”. É esse o papel que cabia ao negro, mesmo que na literatura. É possível que a personagem – um menino branco – acompanhado pela mulher negra que nem nome ganha, estivesse saindo da Igreja do Rosário, localizado no Largo que sempre foi cenário das festas negras. “A própria igreja foi sempre frequentada mais por eles, uma espécie – não-documentada – de Rosário dos Pretos”, escreveu o cronista Dagoberto Carvalho em seu Passeio a Oeiras.

A origem do bairro Rosário, aliás, confunde-se com uma história de resistência e ocupação dos espaços pelo povo preto. Quando a sede do governo migrou da antiga hospedaria jesuíta, que por seis décadas foi a casa oficial do primeiro governador do Piauí, para a casa do próprio Visconde da Parnaíba, no centro, o bairro do Rosário passou a ser um local de morada da população negra, antes, à margem. É o que conta o historiador Junior Vianna. “A sede administrativa ficou naquele bairro até 1824”, explica. “A saída do governador foi crucial para que o povo negro, que morava na periferia, fosse para o Rosário”. 

Contrariando a lógica das capitais nordestinas, geralmente povoadas a partir do litoral, no Piauí a colonização acontece do sertão para o mar. A comitiva do primeiro governador, João Pereira Caldas, a instalar-se no Rosário, incluía não só a família, mas também suas posses. E a moeda de troca da época, além de cabeças de gado, eram pessoas escravizadas.

Mapa extraído do livro “Passeio a Oeiras”, de Dagoberto Carvalho Jr.

É provável que os escravizados dessa comitiva – negros vindos da região do Pará – tenham trazido consigo uma das principais tradições africanas, sustentada no bairro do Rosário até os dias de hoje. A dança dos Congos, ou Congada, é uma espécie de louvor a Nossa Senhora do Rosário – que parte do sincretismo associa a Orunmilá-Ifá, orixá que carrega um colar com sementes de palmeiras, correlacionado ao rosário de Maria – e a São Benedito, ambos santos negros pelos quais escravizados tinham grande devoção.



Além do Congo, outras manifestações são preservadas, por mais de dois séculos, no e pelo Rosário. O bairro cortou o tempo como verdadeiro guardião de seus antepassados. A “doce colina”, como ficou conhecido, mantém ainda o Reisado, a capoeira, o bloco de carnaval Foliões do Samba e a Roda de São Gonçalo – manifestações culturais que, ou misturam o profano e o sagrado, ou revelam uma perfeita integração entre mistérios e vivências. 

Os negros do Rosário: cultura e afetividade

Uma vez por ano, os moradores do bairro do Rosário cuidam em retirar o excesso de pedras lançadas sobre o Pé do Cão. A lenda diz que está ali, naquele pedaço de lajedo, resquícios da passagem do diabo em uma empenhada corrida atrás do filho de deus. Ao lado do monte de pedras, uma pegada humana cravada, sempre à vista, recebe flores e velas de muitos fiéis. Para quem mora no Rosário não há dúvidas de que deus e o diabo estiveram por ali. 

Desde 1994, o ponto de devoção é também referência para quem tenta encontrar o Bar da Gracinha. A poucos metros da lenda da corrida entre o bem e mal, um caldo cozido com as vísceras do boi virou a cara da doce colina. As tradições e ancestralidades do bairro estão também no prato amado por uns e ojerizado por outros: a panelada. 

“Além do Pé do Cão, outra lenda no começo do Rosário é Maria das Graças Pereira, a Gracinha”, conta Ana Paula Sousa, moradora do bairro e filha da proprietária do pequeno restaurante, inaugurado nos anos 90 com um caldeirão de panelada. “Ela aprendeu a fazer o prato com a mãe, que aprendeu com a avó, quando moravam na zona rural de Oeiras”, conta a integrante da 4ª geração de mulheres a perpetuar a receita. 

Por desenvolver um trabalho que preserva as tradições seculares da cidade, Gracinha foi escolhida para dar nome à 1ª Mostra de Cultura Popular de Oeiras, que aconteceu em outubro deste ano. A programação foi toda centrada no bairro do Rosário, com rodas de conversa no interior da igreja e apresentações de grupos de Reisado, do Congo e da Roda de São Gonçalo, no adro. 

“Dar continuidade à cultura não é tarefa fácil, é difícil fazer as pessoas se envolverem”, diz Maria Anatalia, que nasceu e vive até hoje no Rosário. Ela identifica o Grupo de Consciência Negra, responsável pelo ensino do congo às crianças do bairro, como exemplo de fomento à cultura. “Isso hoje já se expandiu para outros bairros, manifestações como a capoeira, por exemplo”, complementa.

1ª Mostra de Cultura Popular no adro da igreja do Rosário (Foto: Secretaria Municipal de Cultura de Oeiras)

“O conselho entendeu que esses artistas, muitas vezes sem apoio, retroalimentam as tradições e a ancestralidade”, diz Stefano Ferreira, secretário municipal de cultura e responsável pela programação que fechou a rua do bar da Gracinha para ver as apresentações. “Ela tem essa potência, é mulher negra, referência na culinária local, desenvolveu o empreendedorismo a partir dessas práticas ancestrais e se tornou referência dentro de um roteiro turístico da cidade”, concluiu. 

A prática de repassar saberes e costumes herdados de seus “troncos velhos” é algo que antropólogos e historiadores também consideram característicos da formação de um povo e seu lugar. “Outra coisa importante para entender a nossa identidade é o afeto”, observa Junior Viana, historiador. A panelada da Gracinha é um prato típico com tempero de história. “Enquanto os senhores comiam as carnes nobres dos gados dos pastos, cabiam aos negros comer as vísceras e as extremidades do animal”. explica. “A gente conseguiu ressignificar um prato para criar a nossa identidade”. 

Pelas mãos de Gracinha, a memória daqueles que vieram antes ressurge com cheiro e sabor no bairro negro. “Essa simples comida é uma forma de lembrar que não somente o Rosário, ou Oeiras, mas todo o Piauí estão forjados pela ancestralidade do povo negro”, conclui Vianna.

Uma errata histórica

Vanda Queiroz cresceu em uma família extensa e numerosa de pessoas pretas. Ela puxa da memória uma recordação afetiva da avó dizendo: “Minha filha, você só quer andar com as negrinhas do Rosário?”. Não havia pudor em externar uma tentativa de embranquecimento numa sociedade marcada pelo racismo. Racializar-se, à época, não trazia qualquer benefício. Pelo contrário: assumir-se negro era desvalorizar-se e excluir-se de direitos. “Vivi mais de 40 anos da minha vida para começar a desconstruir isso”, comenta. 

“A gente não é uma cidade que tem orgulho de ser uma população negra”, diz Vanda, cuja infância e adolescência viveu numa casa em frente ao Mercado Público Municipal de Oeiras, onde o avô tinha uma quitanda. Ao lado de quiosques escoando toda a produção agrícola da região – com destaque para a cera de carnaúba -, vendia-se de alimentos a produtos de limpeza. O ponto de seu avô, no entanto, tinha uma peculiaridade: ele escrevia cartas e vendia livros. Seu nome era Possidônio Queiroz. 

Reconhecido pela atuação na música, na docência e na advocacia, Possidônio era filho de agricultores, o segundo entre cinco irmãos. Nasceu sete anos antes da abolição da escravatura. Entrou para a história do Piauí, sobretudo, pelo brilhantismo intelectual. Compôs 11 valsas, hinos e letras de música. Suas obras são comparadas a grandes mestres da valsa na Europa. O que pouco é dito sobre ele é que, antes de tudo, Possidônio era um homem negro.


Embora convivendo com os avós, de origem inequívoca, Vanda identificava incoerências – apesar de não saber, à época, criança, nomeá-las. “Tinha essa caminhada dentro de espaços controlados, determinados por famílias brancas da cidade”, explica. “Dentro da minha família havia um esforço para se embranquecer”, segue relatando. “Empreendi uma busca por essa identidade, para sair desse lugar de subserviência e exploração”.

Vanda não transparece mágoa. Fala com serenidade, como quem compreende o fato de cada geração viver conforme os costumes do seu tempo. Na ausência de certo acolhimento em casa, o bairro do Rosário virou, frequentemente, seu espelho e lugar de memória. “Era esse lugar pra onde eu podia olhar e me reconhecer”, relembra. “Inconscientemente, estava ali o meu espaço”. Cantora e educadora artística, ela vive hoje no Lajeiro do samba, uma extensão do bairro. “É um lugar para onde eu posso olhar e me reconhecer”. 

A despeito de ser o maior intelectual de sua época – o único negro, provavelmente, a circular entre a elite branca – não há em Oeiras hoje sequer um monumento sobre a trajetória de Possidônio, seja nas artes ou na política, em 93 anos de vida. Apenas o campus da Universidade Estadual do Piauí, localizado em Oeiras, leva seu nome. Além de músico, Possidônio foi um dos mediadores da Coluna Prestes em Oeiras. Como secretário municipal, escreveu muitos discursos políticos e influenciou parte da elite nos espaços brancos que frequentou. “Fiz um esforço muito grande na cidade para manter vivo o espaço de estudo dele, a biblioteca, montar um memorial, e nunca houve abertura para isso”, relata Vanda. “Quando o antigo prédio da prefeitura fechou, foram encontrados manuscritos do meu avô jogados pela janela”, relembra. “Os gestos, muitas vezes, dizem mais do que as palavras”.

A cor no coração

No segundo piso do sobrado Major Selemérico, caldeirões de barro, colheres de pau, ferros à carvão, lamparinas e imagens de negros acorrentados tentam compor um imaginário branco sobre a escravidão. Os itens parecem formar um cenário – não chega a ser um museu, tampouco tem aspecto de exposição. Um visitante desatento ou pouco afeito à leitura pode nem perceber do que se trata aquela sala: uma homenagem a Esperança Garcia.

Esperança foi uma mulher escravizada, tirada à força da Fazenda de Algodões, próxima ao município de Floriano, onde viviam escravizados oriundos da Vila de Oeiras. Ela vivia com o marido e o filho, quando foi confiscada pelos jesuítas para uma fazenda em Nazaré do Piauí. Em 6 de setembro de 1770, usou o pouco de gramática que sabia para escrever uma carta endereçada ao presidente da província, denunciando os maus tratos que sofria. Dois séculos depois, o documento foi reconhecido como uma petição e Esperança Garcia nomeada a primeira advogada do estado – a OAB-PI luta pelo seu reconhecimento nacional como primeira advogada do país. 


“É um espaço conjugado com uma decoração de boi, e traz tudo aquilo que nos faz lembrar a escravidão em sua materialidade”, aponta Vanda Queiroz. “Tudo o que realça a memória do lugar que a branquitude quis colocar o negro. E aí, lá num cantinho, escondido, a fotografia de Esperança”, comenta. “Isso pra mim diz muito”.

Para ela, a cidade que se referia as pessoas como “Os nêgos do Rosário”, numa expressão pejorativa e sem valoração, vive um processo de educação do “vir a ser negro”. “O Rosário sempre gritou: ‘Nós somos negros!’, mas isso foi algo que a cidade nunca quis escutar”, define. 

No ponto geográfico onde pulsa a batida dos tambores, a cadência do congo, corre ainda nas veias de seus moradores uma identidade africana herdada dos antepassados – embora tente, até hoje, romper com o preconceito e a discriminação. “O Rosário é um pedaço da África que a história encarregou de preservar no coração dos oeirenses”, diz Junior Vianna. “Para mim o Rosário sempre foi esse altar”, completa Vanda. “Pra gente olhar o tempo inteiro e lembrar de quem nós somos”. 

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