Pedro Diniz: “O plano de vacinação é muito mais complexo do que adquirir a vacina”

Publicado originalmente em Brasil de Fato por Lucila Bezerra e Vanessa Gonzaga. Para acessar, clique aqui.

Médico intensivista aponta perigos da falta de plano para vacina e diz que frutos das festas de fim de ano podem piorar

Depois de 10 meses da chegada do coronavírus ao Brasil, o país ainda enfrenta o aumento do número de casos sem a infraestrutura adequada para tratamento e sem perspectivas de vacinação para a população. Para falar sobre as perspectivas em torno da pandemia e da vacinação, o Brasil de Fato Pernambuco conversou com Pedro Carvalho Diniz, clínico médico que fala sobre sua experiência na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) de covid-19 em Petrolina (PE). Além disso, Diniz ainda analisa as medidas de saúde pública no estado de Pernambuco. Confira:

BdF PE: Como você vê as medidas que vêm sendo adotadas pelo Estado de Pernambuco em relação á covid-19?

Pedro Diniz: A gente está vivendo essa “segunda onda”, mas a gente não sabe se será a segunda fase da primeira onda ainda, a gente tem essa discussão. O que a gente está observando é que as medidas estão menos rígidas. Tivemos na primeira fase o momento de fechamento de comércio que o pessoal chama de tentativa de lockdown.  Nessa fase a observamos que as medidas estão mais frouxas, talvez,  menos rígidas. O comércio continua funcionando, não há restrição por exemplo em nível estadual de estabelecimentos como bar restaurante, então a gente tá vivendo um relaxamento das medidas para covid-19 em comparação com a primeira fase.

BdF PE: Nesse momento vivemos uma transição política em que prefeituras e câmaras de vereadores estão sendo ocupadas por novas gestões. Qual é o impacto que isso pode gerar na saúde pública?

PD: Morando em Petrolina e observando os municípios de porte menor temos um risco muito grande de descontinuidade de algumas medidas que foram tomadas nas gestões anteriores. Tem mudanças nos contratos de licitação, mudanças de fornecedores. Isso é um momento onde a gente enfrenta a nossa pior crise político sanitária e corre o risco de ver o desabastecimento de vários insumos, principalmente aqueles relacionados aos EPI’s e isso em uma mudança de gestão pode acarretar muito. Aí vamos ter um outro desafio a partir da implementação da vacina, tem também ter risco de desabastecimento ou atraso, visto que Governo Federal tem uma postura de negacionismo, de desacreditar da vacina, nem só da covid-19. Existe um plano de vacinação no Brasil. A cobertura vacinal está caindo e a gente sabe que o município é quem vai gerir a maior parte dos recursos.  É um risco muito grande nesse momento de fragilidade sanitária.

BdF PE: Durante as festas de final de ano observamos um aumento expressivo de aglomerações em festas particulares que não seguiam os protocolos de segurança. Qual a importância das pessoas manterem o isolamento social principalmente nesse momento de aumento do número de casos?

PD: O que os estados e municípios fizeram nessa época de fim de ano de proibir as festas oficiais é muito insuficiente. A impressão que se tem é que as pessoas perderam o medo da covid-19. As pessoas naturalizaram a convivência com a doença e passaram a se aglomerar. Os estados deveriam focar muito na restrição dessas festas, nesses espaços, mas também na educação das pessoas. Não adianta restringir o espaço e de certa forma não investir na educação para que as pessoas não se aglomerem. Nós estamos detectando agora no Brasil uma variante com um poder de transmissibilidade que será 50%, 70% maior do que a original. O que acontece é que as pessoas alegando vezes o cansaço do isolamento social, alegando que não são dos grupos de risco fazem festas e por não serem um grupo de risco elas poderiam se aglomerar com mais tranquilidade. A gente está vendo a população perdendo o senso de responsabilidade e de empatia com o próximo nessas aglomerações. Nós ainda não estamos colhendo os frutos dessas aglomerações de fim de ano, o vírus tem em média um período de cinco dias de incubação, que a pessoa tem o vírus mas não desenvolve os sintomas, mas já transmite. Os pacientes começam a se agravar depois do décimo dia de doença, e a gente ainda não tem esse tempo desde o réveillon. A gente que trabalha na área da saúde a gente está vendo isso com muita apreensão porque a gente está vivenciando um aumento de casos já há várias semanas sabendo que esses casos são subnotificados. Então isso nos preocupa muito.

BdF PE: Atualmente em todo mundo estamos vendo a corrida com a vacina, que já começou a ser distribuída na Europa. Como você observa os próximos passos de importação e distribuição da vacina aqui no Brasil?

Talvez seja essa a resposta que as pessoas menos vão gostar de ouvir ou ler. Eu vejo infelizmente muita preocupação. A gente que está vivenciando no Brasil hoje um atraso muito significativo em relação às medidas da vacinação e o plano de vacinação é muito mais complexo do que adquirir a vacina porque as pessoas estão criando esse pensamento de que basta comprar a vacina, uns tantos milhões de doses e está tudo resolvido. Um plano de vacinação é muito mais complexo do que isso: ele envolve treinamento de profissionais para aplicação, envolve armazenamento da vacina, envolve insumos como seringas, a gente viu nos últimos dias um fracasso na compra de vacinas em larga escala pelo Ministério da Saúde. Lembrando que o ministro é um general de logística isso torna tudo mais grave. 

A covid-19 é uma pandemia da desigualdade e escancarou as desigualdades no modelo econômico do modelo político que a gente vive no Brasil no mundo. O que a gente vê na vacinação agora é que isso também vai acontecer. Enquanto o Governo Federal e Ministério da Saúde que são os responsáveis pelos planos de vacinação no âmbito do SUS estão nesse atraso em relação à vacina, de planejamento, de veiculação, o que a gente vê é a iniciativa privada e o capitalismo aproveitando essa lacuna deixada pela péssima gestão do governo federal e adquirindo vacinas pelo serviço privado, ou seja, para quem pode pagar. Lembrando que a vacinação era uma medida de saúde coletiva. Para que ela seja eficaz é preciso ter a maior parte da população envolvida nisso. E aí você incentivar uma corrida nas camadas economicamente mais favorecidas da população e disponibilizar a vacina para elas não combate de forma alguma a pandemia, como pode piorar através do surgimento de mutações e a gente sabe que o vírus é muito mutável. Então infelizmente eu tenho expectativas em relação à vacinação muito mais baixas do que o que a gente realmente precisa.

BdF PE: Como profissional de saúde que está atuando em uma UTI de covid-19, quais as recomendações que você daria a população?

PD: Eu vou dar essas recomendações com uma carga de relato pessoal. Recentemente no dia 29 de dezembro eu terminei o meu isolamento. Eu estava em isolamento porque me infectei. Porque eu to falando isso? Nós da UTI covid lidamos com o vírus todos os dias mas também temos acesso a EPI e na maior parte das vezes a gente tem cuidado extremo né. A gente vem se tornando obcecado com higiene, com proteção e mesmo assim a gente está se infectando. Tem muita gente morrendo e imagina quem não está fazendo isso?

 O que eu posso falar é para as pessoas começarem a ter um senso, um pensamento coletivo de que essa pandemia não é uma doença simples, nós da área de saúde ainda estamos aprendendo a lidar com ela. A gente está aprendendo a tratar e temos contato com novas manifestações, com novos quadros clínicos. Então um recado que posso dar para as pessoas é que não subestimem essa doença, não tratem essa doença como se fosse brincadeira. Evitem a aglomeração o máximo possível. Existem pessoas que não podem deixar de se aglomerar nos transportes públicos, no dia a dia porque é preciso trabalhar e sustentar a família. 

Usem a máscara, porque ela está relacionada à redução da transmissão da doença. Alguns estudos estão mostrando que a máscara pode estar relacionada à menor gravidade da doença porque ela possibilita contato com menos vírus e isso pode gerar a infecção de uma forma mais leve. Um dos momentos em que a gente mais se infecta é retirando o EPI, porque às vezes o vírus tá ali no canto da máscara,mas você tirou a máscara de uma forma mais descuidada e acaba levando a mão à boca. Então pra tirar a máscara, higienizar as mãos antes e depois. Respeitem, tratem essa doença com mais amor e respeito pela vida do próximo.

Edição: Monyse Ravena

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