Para avançar na eliminação da hepatite C no Brasil, é preciso atualizar os bancos de dados sobre a doença

Publicado originalmente em Agência Bori. Para acessar, clique aqui.

Por Carolina Coutinho, Francisco Inacio Bastos e Elize Massard da Fonseca

No próximo dia 28 de julho comemora-se o dia mundial de luta contra hepatites virais, dentre as quais se destaca a hepatite C, a mais grave e prevalente, conhecida por ser uma doença silenciosa. Por não apresentar sintomas, as pessoas passam anos sem conhecer seu diagnóstico. O Brasil destaca-se pela liderança mundial nas campanhas de testagem e distribuição de tratamento gratuito, que atualmente atinge 95% cura. Entretanto, monitorar a evolução dos resultados dessas ações ainda é um desafio no país.

Os dados epidemiológicos de hepatite C no Brasil não são atualizados de forma satisfatória nos sistemas de informação do Ministério da Saúde (DATASUS). Ainda que seja possível acompanhar anualmente a evolução da doença pelos boletins epidemiológicos tradicionalmente publicados pelo Ministério da Saúde no mês de julho, no restante do ano os gestores locais perdem a capacidade de analisar os indicadores dos seus municípios, regiões de saúde e estados em perspectiva comparada dentro do país. Com isso, não há retorno ágil quanto às ações locais e dificuldades de correção de rumos e aprimoramento dos sistemas locais.

O Tabnet, que compila os casos de hepatite C, não é atualizado desde 2017, enquanto o Painel de Indicadores de Hepatites Virais indica casos (registrados até 2019) e óbitos (até 2020), mas não disponibiliza microdados para análises mais robustas. Mesmo o painel de monitoramento lançado em fevereiro de 2020 não dá acesso a microdados e apresenta informações com algum descompasso temporal, informando a distribuição de medicamentos até abril de 2021 e o número de pessoas tratadas até fevereiro do mesmo ano.

Garantir que os fluxos de informação sejam divulgados o mais imediatamente possível é essencial para auxiliar a tomada de decisão, como ficou claro durante a pandemia de Covid-19 que ainda vivenciamos. A divulgação de dados robustos, quase em tempo real, é crucial não só para subsidiar ações e políticas públicas, mas também para auxiliar a população na tomada de decisão individual.

Felizmente o DATASUS, que tem por principal objetivo estruturar sistemas de informação em saúde e integrar dados, cresceu bastante nos últimos anos, especialmente com o lançamento de programas como o ConecteSUS – aplicativo que registra a trajetória de atendimento do cidadão no SUS. Apesar dos esforços, a falta de profissionais e de treinamento, inadequação dos equipamentos e de acesso à internet nos municípios e nas unidades de saúde, seguem sendo desafios relacionados a dados em saúde do país.

Por isso, é urgente que sejam realizados investimentos em infraestrutura municipal e capacitação de recursos humanos. O caminho de uma possível eliminação ampla das hepatites C passa necessariamente pela soma de um conjunto de ações de eliminação da epidemia em populações específicas, que não poderão funcionar de forma eficiente sem dados atualizados e detalhados em nível local.

Sobre os autores

Carolina Coutinho é epidemiologista, pesquisadora pós-doutora EAESP/FGV, bolsista Fapesp (2020/06990-6) e da Rede de Pesquisa Aplicada da FGV

Francisco Inacio Bastos é epidemiologista, pesquisador titular do ICICT/Fiocruz e investigador principal do projeto Newton Fund Institutional Links

Elize Massard da Fonseca é professora da EAESP/FGV e investigadora principal do projeto Newton Fund Institutional Links

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