Pandemia promove ambiente de ameaça, medo e desamparo

Publicado originalmente em Jornal Beira do Rio por Walter Pinto e Foto de Alexandre de Moraes. Para acessar, clique aqui.

Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas apontou uma queda no nível de felicidade na vida dos brasileiros durante a pandemia de Covid-19, avaliada, numa escala de 0 a 10, com a nota 6,1, a menor da série histórica desde 2006. O impacto maior recaiu sobre os 40% mais pobres e sobre o grupo intermediário da sociedade. Os mais abastados, porém, mantiveram o nível de satisfação com a vida, o que ressalta o nível da desigualdade social da pandemia. A psicanalista Ana Cleide Guedes Moreira, pós-doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Paris 7, coordenadora do Projeto Clínica Psicológica Virtual e professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA, analisa, nesta entrevista, questões relacionadas à saúde mental dos brasileiros na pandemia, explica o crescimento da angústia e da depressão, trata das causas desse quadro, destaca o impacto nas populações mais vulneráveis e aponta saídas para a crise.

A pandemia e o desamparo

Na pandemia, estamos todos correndo perigo de vida. Há o risco biológico de sermos infectados por um vírus – o SARS-Cov2 – para o qual não há remédio nem tratamento eficaz conhecido. A prevenção é a melhor chance de sobreviver à pandemia, seguindo as recomendações sanitárias de usar máscara, lavar as mãos, manter isolamento e distanciamento social, e se vacinar. Embora haja muitos tentando negá-la, o fato é que se trata de risco biológico, real, de que o mero fato de andar nas ruas pode resultar em adoecer e morrer. Ora, isso nos coloca sob a égide de um sentimento humano que todos conhecemos desde o nascimento, o sentimento de desamparo.

Freud observou e descreveu esse sentimento com base na situação que vivemos ao nascer, pois somos um ser, entre os animais da natureza, que precisa de cuidados de um adulto, por longo tempo, até que tenhamos condições de sobreviver sozinhos, provendo a nós mesmos do necessário.

O bebê humano experimenta o completo desamparo e a iminência de morrer, se não for protegido dos perigos. Esse sentimento só é suportado, e enfrentado com sucesso, quando existe alguém em quem a criança pode depositar a confiança de ser socorrida do perigo, no caso, a mãe ou alguém que exerça a função materna.

Dependemos do outro, essa é, talvez, a mais importante reflexão a fazer na pandemia. A ideia de que somos autossuficientes, de que podemos controlar a nós mesmos e ao mundo, não passa de ilusão neurótica. Vimos ao mundo desamparados psiquicamente e assim permanecemos ainda adultos, pois a criança que um dia fomos permanece viva em nós, habita aquela parte do psiquismo que Freud nomeou como inconsciente. Daí o crescimento da angústia e da depressão que observamos na clínica psicanalítica atualmente. 

Processo de melancolização

Há, sim, um processo de melancolização em curso quando vivemos em uma situação de desamparo, como esta em que estamos. A perda de um objeto amado é a causa da melancolia, essa é a tese de Freud, que permanece irrefutada desde 1917. Ora, o que está acontecendo em nosso país é que estamos sendo subjugados por uma máquina mortífera de produção de desamparo. Seremos capazes de sobreviver como nação sem a sustentação de um aparelho de Estado que desenvolva políticas públicas eficazes para enfrentar, de modo coordenado, a pandemia? Além da permanente ameaça de risco biológico individual, temos perdido pessoas amadas, e já não há nenhum brasileiro que não chore um familiar, parente ou amigo próximo, desaparecido para a Covid-19.

Causas da crise mental

Desde o início, em fevereiro de 2020, o conhecimento científico colocou à disposição do mundo recurso suficiente para o enfrentamento da pandemia, e a receita contra a Covid-19 é bem direta: coordenação central, testes, fechamento (com restrição da mobilidade humana e possível lockdown), mais vacinas e mais colaboração científica internacional. Mas a receita não foi aplicada no Brasil e continua não sendo. O resultado é que, até o momento, mais de 500 mil brasileiros perderam a vida para a Covid-19, não temos uma coordenação central para planejar e executar um plano cientificamente embasado de enfrentamento da pandemia, não fazemos testes em massa, ou seja, não sabemos nem mesmo a extensão da contaminação no Brasil. A vacinação começou tardiamente e avança a passos lentos. Uma tragédia nunca imaginada, que levaremos anos para aquilatar com precisão. Como manter a saúde mental vivendo neste inferno dantesco?

As políticas de saúde

Precisamos de políticas públicas para a saúde mental, pois estamos sendo acossados, todos os dias, por perdas incomensuráveis. Temos o Sistema Único de Saúde estrangulado pela Emenda Constitucional nº 95, do Teto dos Gastos Públicos, o sucateamento acelerado e a precarização da assistência de saúde quando mais a população necessita de atendimento para a Covid-19 e demais doenças, todas que não param de crescer.

Populações mais vulneráveis

Como ensina a sabedoria popular, “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. São as populações mais vulneráveis as que mais estão sofrendo no pandemônio. O feminicídio no país é um caso de saúde pública que está sendo negligenciado e resulta em aumento significativo do sofrimento psíquico. As mulheres sabem o que é viver com medo da violência, do estupro e do feminicídio, postura que parece indiferente para os homens, agentes dessa crueldade. Do mesmo modo, a violência contra a população LGBTQIA+ teve aumento expressivo. As crianças também padecem com o crescimento da violência e do abuso sexual doméstico, na medida em que tiveram que permanecer fora da escola na pandemia. Somos uma população de maioria negra, e os estudos mostram que essa população é a que mais tem adoecido e morrido de Covid-19, enquanto é a menos priorizada pela campanha de vacinação. E temos em curso, há quinhentos anos, o genocídio dos povos originários, que na pandemia têm sofrido com as perdas de vidas e os ataques sucessivos do governo central. Segundo a pesquisa da FGV, observamos perda relativa de felicidade. De novo, é preciso reconhecer que o cenário nacional nada deixa a dever ao inferno descrito poeticamente por Dante, no século XIV.

O que fazer para mudar

É urgente a população recuperar a capacidade de reconhecer que fazer política é uma questão de sobrevivência. O sentimento de desamparo tem efeitos políticos cuja gravidade resta ainda avaliar. Desamparados, tendemos a aderir ao outro que oferece proteção, mesmo que esse outro esteja mentindo e enganando. Somos levados a negar seus aspectos negativos e aderir a ele como um líder que pode nos salvar. É urgente recuperar a capacidade de pensar como indivíduos adultos, capazes de discriminar entre a verdade e a mentira, buscar informações e conhecimento consistente para nos orientarmos no caos que se tornou o país. O brasileiro parece estar infantilizado e não ter a clareza de que cada um tem que salvar a si mesmo, e a sobrevivência só é possível em ações coletivas e políticas que visem ao bem comum.

Luto em luta

Há uma importante parcela da população que permanece em estado de alerta, transformando o luto em luta, para usar a expressão cunhada nestes tempos sombrios. Já tivemos manifestações em mais de uma centena de cidades brasileiras, unificadas por ideais como “comida no prato, vacina no braço” e pelo impeachment do chefe do Executivo, desde maio de 2021. O mundo está assistindo, estarrecido, ao Brasil se transformar num ameaçador laboratório de novas variantes do SARS-Cov-2, mas também testemunha o nosso desejo de recuperar a felicidade perdida, rumo à transformação deste território de desigualdades e violência em um país civilizado.

Clínica Psicológica Virtual

No início da pandemia, criamos a Clínica Psicológica Virtual da UFPA para oferecer atendimento público e gratuito, por meios virtuais, telefone ou videochamada. No interior dessa clínica, vêm-se desenvolvendo pesquisas que serão oportunamente publicadas, mas já é possível dizer que muitas pessoas nos procuraram para relatar o aparecimento de sintomas psicopatológicos que não apresentavam antes, como ansiedade, medo extremo chegando até ao pânico, falta de concentração, dificuldade de conciliar o sono, perda de apetite, tristeza, depressão e melancolia. Também tivemos relatos de intensificação de sintomas já conhecidos, como os rituais de limpeza da casa e do corpo muito mais do que o necessário.

Segundo a literatura especializada, o aumento do sofrimento psíquico era esperado e deveria ter sido objeto de planejamento de políticas públicas para evitar seu agravamento, se a ciência fosse valorizada como é nos países que não estão subjugados ao obscurantismo, ao negacionismo e à corrupção.

 Beira do Rio edição 160

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