Não foi só o CNPq que sofreu um apagão

Publicado originalmente em ObjETHOS. Para acessar, clique aqui.

Pedro Aguiar
Doutor e professor de Jornalismo da UFF

Guilherme Carvalho
Doutor e professor de Jornalismo da Uninter e do mestrado em Jornalismo da UEPG

 Especial para o objETHOS

A queda dos sistemas de informação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), desde a sexta-feira, dia 23/7, demorou a receber atenção da imprensa brasileira, mas repercutiu bastante nas mídias sociais e, com isso, pautou canais do amplo espectro ao qual nos referimos aqui como “mídia progressista”.

O episódio expôs mais uma vez a ausência de uma política de desenvolvimento científico e tecnológico e o descaso com instituições de pesquisa e pesquisadores brasileiros. É a revelação de problemas que são muito mais complexos no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e que revelam apenas a ponta de um grande iceberg. Mas, a exemplo do que já ocorreu em outras ocasiões, a imprensa também precisa ser repensada, principalmente aquela que vem sendo classificada como de “esquerda”.

Movidas pelo propósito político, algumas das iniciativas também denominadas “alternativas”, “independentes”, “populares”, contribuíram para endossar os argumentos daqueles que as acusam de ativistas e militantes. É uma prova de que passou da hora de ampliarmos o debate sobre os deveres éticos do jornalismo para além do jornalismo de referência e considerá-los também para a análise de práticas ditas progressistas. 

De início, o próprio CNPq se manifestou de forma pouco clara. As primeiras informações chegaram desencontradas, via publicações de usuários dos sistemas Lattes, Carlos Chagas e do Programa Nacional de Bolsas de Pós-doutorado (PNPD) que não conseguiam acessá-los. Esses sistemas são necessários para concorrer a bolsas e em processos seletivos de pós-graduação, tanto no Brasil quanto no exterior.

Durante o fim de semana, circulou um áudio gravado pelo Whatsapp em que uma mulher não identificada, presumida como funcionária do CNPq, afirma que a “placa do servidor” do órgão – que é subordinado ao ministério – “queimou” e que teria havido perda de dados porque “não tinha backup”. O interlocutor a quem ela se dirigia tampouco foi revelado. Na gravação, ela diz, textualmente:

“Bom, professor, essa semana eu acho que vamos seguir com muitos problemas no CNPq, porque queimou a placa do servidor do CNPq. Então, tirando o site do CNPq que está hospedado da plataforma do governo federal, a plataforma .gov, e tirando o SEI, que tá hospedado do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), todo o resto do CNPq está inoperante. A gente tá sem e-mail, sem Plataforma Carlos Chagas, sem o e-Fomento, sem nada. Então, qualquer coisa [de] que os senhores precisarem essa semana do CNPq e não tiverem nossos telefones particulares, vão ficar sem resolver, porque não tem e-mail, não tem comunicação, e até os telefones também não tão funcionando. O CNPq… tudo porque a placa do servidor do CNPq queimou, não tinha backup. A gente não sabe exatamente do backup o que a gente perdeu (de dados), se perdeu alguns segundos, alguns minutos, horas, dias. A folha de pagamento também está comprometida, porque vai ter que fazer algum processo manual. Enfim, tá um caos no CNPq, pra esse problema ser resolvido. Então, assim, relaxa com isso daí, porque esse é o menor dos nossos problemas agora”.

O CNPq emitiu uma primeira nota oficial no sábado à noite, sem explicar muito – e sem tranquilizar os pesquisadores. Em particular, o texto não mencionou nada sobre perda de dados, nem sobre a existência de cópias de segurança.

Na segunda, 26/7, à medida que pesquisadores em todo país percebiam que o Lattes e os outros sistemas do CNPq continuavam fora do ar, aumentou a circulação de rumores e de especulações. Uma segunda nota do órgão reiterou os esforços para “restaurar o acesso aos currículos na Plataforma Lattes o mais rápido possível”, mas continuou sem citar qualquer prejuízo irrecuperável de informações.

Somente na tarde de terça-feira, o site do jornal O Estado de S.Paulo deu uma nota que praticamente reproduzia as informações oficiais. Atualizada à noite e estendida, a matéria incluiu aspas de pesquisadores, da federação das fundações de fomento à pesquisa e do presidente Associação dos Servidores do CNPq, Roberto Muniz.

Fora o Estadão, poucos títulos da grande imprensa destacaram a pauta, com atraso. Os veículos do Grupo Globo, incluindo a Globo News e o G1, alimentado pelas emissoras afiliadas (de AL, CE, DF, ES e SC), trataram do problema entrevistando personagens – em geral, pesquisadores locais receosos de perder acesso a bolsas e processos seletivos. Jornais como A Tarde, de Salvador, e o Jornal do Commercio, de Recife, reproduziram o texto original do Estadão, distribuído pela Agência Estado. À tarde, a BBC News Brasil soltou uma reportagem, por sua vez replicada em outros sites, como o UOL. Portais regionais como o Bonde, do Paraná, o MídiaMax, do Mato Grosso do Sul, e o Amazonas Atual repetiram a nota do CNPq.

Mas nem todo mundo se fiou pela versão oficial.

Ainda na terça-feira, pouco após o meio-dia, o site Revista Fórum publicou uma matéria que afirmava categoricamente que dados tinham sido perdidos. Sob o título “Apagão na ciência: sem backup, servidor do CNPq queima e milhares de dados acadêmicos desaparecem”, o texto confrontava a nota de sábado do órgão com as especulações reproduzidas no WhatsApp e acusava o governo de omitir a suposta perda de dados. Para se embasar, a matéria transcrevia o trecho final do áudio e atribuía as aspas à instituição, encerrando com “informou o Conselho”.

O problema é que o CNPq não informou nada daquilo que estava na fala da suposta funcionária. A segunda nota era evasiva em relação a backups e perda de dados, mas não validava o áudio.

Texto muito parecido saiu logo em seguida no site da revista Carta Capital, às 13h38, repetindo o trecho do áudio, mas usando verbos no condicional: “O motivo seria a queima de um servidor” – no que se espera ser referência a um computador, não a um funcionário público. Para agravar, a revista cravou no subtítulo (ou linha-fina): “O Conselho ainda não dimensionou os danos, mas confirmou que não tinha backup de placa comprometida”.

Não: não confirmou.

Pelo contrário: em nova nota oficial (a terceira desde a queda dos sistemas), às 14h21 de terça, talvez reagindo às especulações, o conselho finalmente negou qualquer “perda de dados da Plataforma Lattes” e afirmou que “existem backups cujos conteúdos estão apoiando o restabelecimento dos sistemas”.

Além disso, as notas públicas do conselho não chegaram a dizer qual seria o equipamento com defeito. De qualquer maneira, “placa” não armazena dados: isso é feito por discos rígidos (HDs) e por dispositivos de armazenamento como SSD e os “storages”. Além do áudio vazado, circularam entre pesquisadores e-mails atribuídos a servidores do CNPq, mas não confirmados, indicando que a origem do problema era um “defeito terminal” em um “storage” do modelo EMC VNX 8000, uma espécie de “gaveteiro de HDs”. Esse tipo de equipamento funciona como um hub de rede para compartilhar armazenamento entre vários servidores. Se forem feitos backups periódicos, numa eventual falha de um “storage” a perda de dados pode ser mínima.

Após a terceira nota do CNPq, a Carta Capital publicou uma nova matéria, desta vez afirmando que o órgão “voltou atrás” e que afirmava ter backup dos dados do Lattes. Em novo subtítulo problemático, a revista dizia: “Mais cedo, o Conselho havia dito que não tinha backup do servidor queimado que causou apagão no sistema”.

Talvez por pressa, talvez por afã de denúncia, senão ambos, tanto a Carta Capital quanto a Fórum tomaram o áudio da suposta funcionária como manifestação oficial da instituição. E, baseadas nessa presunção, cravaram que o CNPq reconhecera ter perdido dados, o que não chegou a acontecer. Foi o suficiente para que, em pouco tempo, os links das notícias se espalhassem entre grupos de professores e outros ambientes, causando pânico, sobretudo, na comunidade acadêmica.

Mas havia pistas de que, no mínimo, o desconfiômetro estava ligado. O próprio texto da segunda matéria mantinha o condicional, usando “o CNPq teria dito”, sem citar o áudio. No entanto, os títulos ainda falavam em “apagão” e falta de backup. 

É verdade que a comunicação institucional do CNPq não ajudou a tranquilizar a comunidade científica brasileira logo de início. E, confiando no que disseram as matérias, o órgão não respondeu os contatos de reportagem – nem dos veículos progressistas, nem do Estadão. Mas a apuração da Fórum, da Carta Capital e de vários sites de esquerda que reproduziram as mesmas informações ao longo da terça-feira (textos citando as duas revistas saíram no Brasil247DCM,ViomundoMídia NinjaEsquerda DiárioJornalistas Livres e no jornal Monitor Mercantil, além de blogueiros e influenciadores críticos ao governo Bolsonaro) relaxou os parâmetros jornalísticos, para usar um eufemismo.

No cenário atual, marcado pelas acusações a jornalistas e tentativas de descredibilização da imprensa, não há espaço para cometer erros. Neste episódio, a produção incorreu no equívoco da falta de checagem, da imprecisão da informação e da ausência do direito ao contraditório. Mas, diferentemente do que ocorre na maioria dos casos em que situações como esta se apresentam, a informação equivocada é resultante não da pressão pela urgência da publicação, mas do pressuposto incorreto fundamentado em aspectos ideológicos. E esse tipo de falha é lembrado quando os mesmos veículos passam o chapéu pedindo vaquinhas e assinaturas solidárias para sustentar o jornalismo independente.

Não estamos negando o fato de que o problema existiu. Sim, os sistemas do CNPq caíram muito provavelmente por incompetência e em decorrência do corte de verbas para a área de Ciência e Tecnologia. E, até agora, não se sabe com segurança se houve alguma perda de dados, nem se o backup que a entidade diz ter contempla todas as atualizações mais recentes. Pelo menos até a noite de terça, os sistemas continuam fora do ar.

A imprensa de referência demorou a se manifestar sobre o caso ou não preveniu sobre o que poderia ocorrer, mesmo com todas as pistas que vinham sendo dadas. Da mesma maneira, os chamados progressistas também não alertaram sobre o problema e, quando o fizeram, não se ativeram aos aspectos objetivos da produção da notícia. Acreditaram em uma fonte anônima, de um áudio sem procedência. A necessidade de pluralismo e de diversidade no jornalismo brasileiro é urgente e inegável, mas ela não pode sacrificar os princípios necessários para obter e confirmar as informações de interesse público.

Assim, é a sociedade que fica num apagão de informações por duas vias paralelas: de um lado, uma grande imprensa apegada a versões oficiais, pouco afeita aos questionamentos e a ouvir os lados frágeis, especialmente da comunidade acadêmica e do funcionalismo público; de outro, uma mídia progressista afoita, confortável em baixar o nível de exigência da apuração se for do interesse da linha editorial. O jornalismo precisa ser um só, com os mesmos parâmetros, de parte a parte, ou então não cumprirá sua função social e deixará todos nós no escuro.

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