Ministro erra ao dizer que jornalista não deve interpretar

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa por Allysson Martins. Para acessar, clique aqui.

Eduardo Pazuello é um general do Exército e atualmente ocupa o cargo de ministro da Saúde do Brasil. Que ele não entende de saúde, mesmo assumindo esta pasta, já sabíamos, agora, ele manifestou o seu desconhecimento também sobre outro aspecto: o jornalismo. Aqui, a opção é acreditar que foi ignorância do general-ministro e não má fé ou jogo político, cuja intenção seria criar uma narrativa para desacreditar e descreditar a imprensa.

“Nós não queremos a interpretação dos fatos (…) Deixem a interpretação para casa um de nós”, bradou Pazuello após quase uma hora da sua primeira coletiva em 2021. Ele diz ainda que não foi delegado aos jornalistas a interpretação dos fatos. O general-ministro poderia estar menos errado, se estivesse falando de um jornalismo praticado no século 19. Como já se passaram mais de cem anos, o seu pronunciamento demonstra, na melhor das hipóteses, apenas a sua ignorância sobre o assunto.

A ideia de fato, como a verdade objetiva, não faz mais parte do âmbito jornalístico, ao menos não como uma realidade independente de interferências. Há mais de meio século, ao jornalismo cabe a função de construir a realidade, uma vez que o fato puro seria algo inalcançável à percepção humana. Quando uma reflexão está envolvida, qualquer ação passa a ser interpretada. Essa construção trata de modo mais honesto como o jornalista se relaciona com a sociedade.

A visão positivista de que o humano interage com o objeto ou fato de modo imparcial, neutro e objetivo já não faz mais sentido, e há muito tempo. Essa percepção de mundo do general-ministro, entretanto, está atrasada em mais de um século. Como um arquétipo militar, cuja ideia de ordem (e progresso) está em seu cotidiano, tentou ditar o que os jornalistas deveriam escrever. Fora dos quartéis, onde o positivismo simplista é mais do que superado, essa exigência não ganha respaldo. Luiz Oliveira até abordou este viés autoritário na edição anterior neste Observatório.

Para além de escolher o que os profissionais devem escrever (o que seria um absurdo, e não duvidamos dessa intenção), o general-ministro demanda que o jornalista não cumpra sua função (interpretar a realidade) ou atue de maneira impossível (sem sua subjetividade). A perspectiva de Eduardo Pazuello poderia fazer sentido para o jornalismo ocidental pré-guerras mundiais, e mais por causa dessas sociedades do que pela atividade profissional.

O jornalismo interpretativo é um gênero jornalístico que vai para além da subjetividade, da escolha das pautas e das fontes, do modo como o profissional enxerga determinado fato. Ele tem um formato jornalístico consolidado, que demanda do jornalista capacidade de articulação em uma sociedade complexa. Na verdade, exige uma compreensão mais profunda da realidade, entender o porquê do fato existir e como ele se relaciona com outros aspectos da vida social.

Ao jornalismo que apenas noticia, sem aprofundar, chama-se informativo. Ele existe. Ainda assim, este gênero não aborda o fato como se fazia até o século passado, pois não se fala mais de espelho da realidade como há alguns anos. Mesmo ao informar, o jornalista ajuda a construir a realidade, por causa da subjetividade inerente em si, e isso não quer dizer que deste profissional também não se espere interpretação.

Um militar não entender a função social do jornalismo é até esperado, não faz parte de sua competência. O que não deveria acontecer é um ministro da Saúde criticar uma profissão sem ao menos conhecê-la. Ao se propor a abordar um assunto, ele precisaria ao menos estudar um pouco. E não necessitaria ir muito longe para perceber que o seu pensamento é retrógrado e não condiz com a realidade, ao menos para aquela que existe fora da sua cabeça. Em leituras superficiais sobre a produção jornalística, a função de interpretar aparece recorrentemente, sobretudo porque se tratou de uma mudança de paradigma para a profissão no século passado, em especial com o jornalismo investigativo e o Novo Jornalismo.

O general-ministro pode acompanhar apenas o jornalismo informativo, caso não deseje consumir produtos interpretativos. Na verdade, Eduardo Pazuello não parecia incomodado com a interpretação dos jornalistas, mas com a liberdade deles, com a possibilidade dos profissionais abordarem os fatos a partir das suas visões de mundo. Para isso, não tem jeito, a não ser que ele esteja fazendo mais confusão, da imprensa com a assessoria, mas aí exigiria outra reflexão. E, na real, o que esperar de um ministro que já demonstrou não compreender profundamente sequer os temas da sua pasta? A busca por conhecimento nunca pareceu uma prioridade.

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Allysson Martins é professor de Jornalismo e coordenador do MíDI – Grupo de Pesquisa em Mídias Digitais e Internet na Universidade Federal de Rondônia (UNIR). É autor do livro “Jornalismo e guerras de memórias nos 50 anos do golpe de 1964”.

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