Mais do que divulgar ciência, pesquisadores querem mostrar que a Universidade é lugar de troca

Publicado originalmente em Jornal da Universidade por Mírian Barradas e Carla Mello. Para acessar, clique aqui.

Ciência | Diversas iniciativas desenvolvidas na UFRGS buscam conectar a Universidade à sociedade. Formação de jovens pesquisadores em divulgação científica é o foco de atividade oferecida a pós-graduandos

Desde o começo da pandemia de covid-19, a ciência tem tido cada vez mais destaque na imprensa e nas conversas do cotidiano. Universidades e institutos de pesquisa do mundo inteiro se debruçaram para entender mais sobre o SARS-CoV-2, esse novo vírus que impactou a nossa realidade de tantas maneiras, e ocorreu uma verdadeira “corrida” pelo desenvolvimento de vacinas que fossem seguras e eficazes contra a doença. Nesse contexto, expressões tão conhecidas no meio acadêmico, como “ensaio clínico”, “grupo controle”, “fase 3”, passaram a circular com frequência fora dos muros da pesquisa, nos veículos de comunicação e nas conversas por Whatsapp. 

Com esse interesse crescente da sociedade pela ciência – e também com a disseminação de fake news –, os cientistas cada vez mais têm sentido necessidade de se comunicar com o público que está fora da academia. Mais do que simplesmente divulgar o que é feito nas universidades, os pesquisadores aos poucos estão aprendendo a se aproximar desse público que tem outros saberes. É o que destaca o professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas da UFRGS (PPGCM) Jonas Saute, um dos responsáveis pela disciplina “Do laboratório para a sociedade: técnicas de divulgação para a sociedade de avanços científicos desenvolvidos na UFRGS”, oferecida a estudantes de todos os programas de pós-graduação da Universidade.

“Um dos grandes papéis [da divulgação científica] é mostrar pra sociedade não só o que a universidade produz de ciência, mas mostrar que a universidade está aberta e que é um lugar da sociedade. A universidade não é algo para poucos, é um espaço público, de troca”

Jonas Saute

Em duas turmas realizadas de forma totalmente remota, 180 pós-graduandos da Universidade – vinculados a 30 programas, tão diferentes entre si quanto Física, Endocrinologia, Botânica e Engenharia Civil – já têm uma formação básica sobre como se comunicar com o público, de acordo com a habilidade e área de cada um. O próprio corpo docente é multidisciplinar, já que a iniciativa congrega professores da Medicina, da Física, da Comunicação e da Informação. 

Os docentes ressaltam que a disciplina foi uma forma de juntar iniciativas que estavam sendo desenvolvidas de maneira pulverizada nos PPGs. “Há uns dois anos começamos a organizar pequenos cursos no Instituto de Física para que os alunos começassem a aprender a escrever press release e fazer vídeos curtos sobre as suas pesquisas”, conta a professora Raquel Giulian, uma das organizadoras da atividade. No PPG Física é obrigatório que os alunos de pós-graduação escrevam um press release do seu trabalho quando finalizam o curso. 

No PPG Endocrinologia, o interesse pela divulgação científica começou a partir de uma avaliação da Capes: “Fizemos uma autoavaliação do programa para uma avaliação da Capes e percebemos que tínhamos que melhorar a parte da divulgação científica. Começamos com algo bem caseiro, dos alunos fazendo vídeos dos seus trabalhos, mas eles não sabiam fazer”, completa a docente do programa Cristiane Leitão. 

Foi em um encontro de jovens pesquisadores realizado na Universidade em 2019 que esses esforços e interesses pulverizados começaram a se unir. Como já participava do Núcleo de Disciplina Interdisciplinar da UFRGS (NDIP), Jonas agiu como um catalisador, articulando professores que tinham interesse na temática, para oferecer uma disciplina aberta a qualquer pós-graduando da UFRGS sobre divulgação científica. 

A primeira turma, realizada já de forma remota e durante a pandemia, superou as expectativas dos docentes, com 120 inscritos. Na segunda turma, oferecida no primeiro semestre deste ano, foram 60 alunos. Os docentes destacam que o fato de ter sido uma atividade remota facilitou muito a participação de alunos de diferentes programas e de convidados de todo o país e do exterior. “Se nós tivéssemos feito a disciplina presencial, as próprias atividades teriam sido diferentes. Teríamos incentivado, talvez, teatro ou outras ações presenciais. No remoto, valorizamos a comunicação digital, os canais possíveis, e funcionou muito bem”, acredita Raquel. Uma das atividades propostas aos alunos foi a criação de vídeos curtos nos quais contassem, em uma linguagem simples, sobre suas pesquisas.

“O que estudamos tem que ser traduzido para a sociedade. Não basta divulgar na nossa bolha universitária, explicar só para a gente”, complementa Gabriela Flores, mestranda do PPG Ciências Farmacêuticas que cursou a disciplina. Ela conta que nunca teve experiência com projetos formais de divulgação científica, mas que já na graduação em Farmácia participava de projetos de extensão em que tinha contato com o público externo à universidade.

“A disciplina me despertou vontade de fazer divulgação científica, elaborar conteúdo para redes sociais, por exemplo. Acho que vai ser útil mesmo para um trabalho futuro, fora da academia, no contato com as pessoas”

Gabriela Flores
Tradição e inovação

Não é de hoje que os diferentes núcleos de ensino da UFRGS buscam alternativas para a divulgação científica e a formação de pesquisadores capacitados no tema. O Instituto de Psicologia, por exemplo, oferta, há mais de doze anos, uma disciplina de graduação sobre o assunto aberta também a alunos de outros cursos, como Comunicação e Ciências Biológicas, e outra no PPG Psicologia, disponível a pós-graduandos de outros programas. 

A docente responsável por essas atividades é Lisiane Bizarro, que conta que o trabalho final dos alunos é fazer uma divulgação a partir dos princípios trabalhados em aula. Ao longo do tempo, os discentes produziram textos, press release, cartas, websites, blogs, publicações para redes sociaisvídeos e até mesmo um e-book. “Como o interesse dos estudantes de outras áreas é variado, nem sempre a divulgação era sobre psicologia”, afirma, complementando que recebeu apoio de órgãos, como a Secretaria de Educação a Distância e as Pró-reitorias de Pesquisa e de Extensão, ao longo dos anos. 

Outra unidade envolvida de forma ativa na divulgação científica é o Instituto de Física (IF). “A extensão no Instituto de Física começou muito antes da existência da Pró-reitoria de Extensão”, aponta o servidor do Instituto, Walberto Chuvas, responsável por registrar as ações realizadas por lá como atividades de extensão. Desde sua fundação, o IF tem projetos que procuram aproximar a comunidade da ciência e da pesquisa produzida pelo Instituto. 

Um desses projetos é o Simplifísica, que surge em 2005, no ano internacional da Física. O evento, que inicialmente contemplava palestras feitas em auditórios de livrarias em Porto Alegre, alcançou outros públicos com as gravações feitas pela UFRGS TV. Em 2008 surge o ciclo de eventos Conversas ao Pé do Físico, também gravado e posteriormente disponibilizado para escolas e professores, que utilizavam os vídeos como material de ensino. O objetivo dos dois projetos era o mesmo: aproximar a Física do cotidiano e da realidade das pessoas. “E, a partir de 2005, todos os meses de março a novembro, na última quinta-feira do mês, um dos professores do IF falava sobre as pesquisas e as experiências que eram feitas nos laboratórios”, conta Walberto. Outra ação de divulgação científica era o Ciclo de Palestras, que reunia diversas pessoas no Planetário do Câmpus Saúde para debater temas diversos. Todos os tradicionais eventos promovidos pelo Instituto de Física pediam a doação de um quilo de alimento, material escolar, brinquedos ou roupas como forma de ingresso. As doações eram distribuídas para as comunidades carentes no entorno do Câmpus do Vale, o que aproximava ainda mais a Universidade da população.

Diante da pandemia, o IF precisou se reinventar e buscar novos formatos para permanecer divulgando a ciência e os projetos realizados no Instituto. Uma das ferramentas utilizadas foi a criação da Astro UFRGS, uma página nas redes sociais em que é possível se informar sobre os eventos voltados à Astronomia e ainda descobrir curiosidades sobre o universo. O Instituto de Física também criou páginas nas redes sociais para divulgar conteúdos relacionados à área. Segundo a professora do departamento de Astronomia Ana Chies, a pandemia mostrou que os cientistas precisam estar presentes nas redes sociais, divulgando o que é de fato científico, já que há uma eterna luta contra as fake news e os conteúdos negacionistas.

As tradicionais ações de divulgação que antes envolviam encontros presenciais foram canceladas e substituídas por projetos online, porém o objetivo permanece o mesmo: tornar a ciência acessível para um maior número de pessoas.

“Esse nosso projeto com o Facebook, Instagram e o Twitter da Astronomia e da Física visa divulgar a pesquisa que a gente produz. Nós produzimos tanto conhecimento que não sai das teses e dissertações. Esse conhecimento precisa ser traduzido para as pessoas saberem o que a gente faz. Não podemos ficar escondidos dentro do laboratório, precisamos ir para a sociedade”

Ana Chies
Incentivos e desafios

Ainda há um longo caminho a percorrer para que a sociedade não só entenda a importância da ciência, mas também se aproprie de forma mais efetiva do conhecimento científico. Segundo a última edição da pesquisa “O que os jovens brasileiros pensam da ciência e da tecnologia?”, realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), o interesse do jovem brasileiro por C&T é grande: 67% dos respondentes afirmaram ter interesse ou muito interesse no assunto e 69% acreditam que a ciência traz benefícios à sociedade. Por outro lado, pelos dados da pesquisa, o conhecimento científico e a busca por esse conhecimento ainda são muito baixos: apenas 5% conseguem se lembrar do nome de um cientista brasileiro e apenas 6% frequentaram, no ano anterior à pesquisa, algum museu ou centro de C&T. Entre os adultos, o interesse por ciência e tecnologia se mantém estável nos últimos anos, conforme a Percepção Pública da C&T no Brasil 2019, e grande parte dos entrevistados acredita que os investimentos em ciência deveriam ser aumentados. No entanto, o consumo de informação científica caiu nos últimos anos ou se manteve baixo, assim como a visitação a museus e espaços de ciência: mais da metade dos entrevistados relata não assistir a programas de TV sobre ciência; e apenas 24% relataram ter visitado bibliotecas nos 12 meses anteriores, por exemplo.

Nesse contexto, as tradicionais e as novas iniciativas de divulgação científica enfrentam uma série de desafios para tentar reverter o cenário. Quando questionada sobre os incentivos e desafios institucionais para divulgação científica, Raquel é taxativa e afirma que existe cobrança, e não estímulo.

“A gente é cobrado a fazer, porque, quando tu escreves para pedir financiamento, é preciso escrever de uma forma clara, tem que colocar uma nota de imprensa no formato que eles pedem. Só que ninguém nunca mostrou como fazer e os próprios exemplos que as agências [de fomento] dão são muito ruins”

Raquel Giulian

Para ela, mais do que cobrar divulgação, é necessário que as instituições capacitem os pesquisadores para que se comuniquem de forma adequada. Jonas, por sua vez, acredita que essa cobrança das agências de fomento é positiva; mesmo que não se capacite o pesquisador, é um indicativo de que a divulgação é importante. “Obriga as pessoas a se moverem nesse aspecto, porque mexe no bolso”, reflete.

Já há editais de financiamento que destinam recursos específicos para comunicação, como este do CNPq, que prevê, no item 5.2.2, a “destinação de recursos para a inclusão de profissional especializado na área de divulgação científica como membro de equipe ou a contratação de equipe especializada em tradução do conhecimento”. 

Em relação aos incentivos da Universidade para a divulgação científica, Cristiane acredita que a UFRGS deveria fornecer mais meios e possibilidades para que os pesquisadores consigam divulgar seus trabalhos. Por outro lado, Jonas destaca a atuação da Secretaria de Comunicação Social (Secom) e a abertura do setor de comunicação institucional para essas demandas. A Secom mantém, desde 2016, o portal UFRGS Ciência, que faz a divulgação das pesquisas desenvolvidas na Universidade. 

Dentre as unidades, há poucas que possuem um setor de comunicação específico: nos programas de pós-graduação, por exemplo, a divulgação normalmente é feita pelos servidores que acumulam outras funções. No PPG Endocrinologia, quem mantém as páginas nas redes sociais é o próprio secretário, que também exerce as tarefas administrativas do programa, exemplifica Cristiane. No PPGCM, segundo Jonas, o bolsista que era responsável por essa tarefa foi desligado e não houve reposição. Também há dificuldades burocráticas: os professores contam que há um desconhecimento dos programas de pós-graduação sobre as disciplinas oferecidas pelo Núcleo de Disciplina Interdisciplinar e que houve dificuldade até no aproveitamento dos conceitos obtidos pelos alunos junto aos programas. Além disso, por ser uma atividade interdisciplinar, a disciplina não é considerada pertencente aos programas e não conta para a avaliação desses programas junto à Capes. 

A adaptação da linguagem é outro desafio. Para Raquel, o cientista acredita que sabe se comunicar e se surpreende quando percebe que ninguém entende a linguagem acadêmica. “A gente pensa: ‘Eu sei escrever, afinal, escrevo artigos’. Ainda é muito difícil pro pesquisador, principalmente da minha área, a Física, se dar conta de que ninguém entende o que ele está falando”, diz. 

Francielle dos Santos, uma das alunas que cursou a disciplina, tem a divulgação científica como objeto de estudo. No mestrado em Ciência da Informação pela UFRGS, ela estuda o uso de métricas alternativas (altimetria) de divulgação da ciência nas redes sociais. A cientista reforça como é desafiador explicar a pesquisa em uma linguagem simples:

“Falar em voz alta nos ajuda a entender a nossa própria pesquisa, porque a gente tem que se esforçar pra contar pra outras pessoas de maneira simples. [Fazer um vídeo] foi um exercício excelente”

Francielle dos Santos

Os próprios docentes contam como a atividade mudou a visão deles sobre divulgação científica. “No início, eu tinha muito a visão de ‘vamos levar a ciência para a sociedade, vamos fazer um vídeo, vai impactar todo mundo’. Hoje vejo que a universidade tem um papel maior em relação a isso”, diz Jonas.

Raquel complementa: “Eu não me sinto no papel de ensinar ninguém, estou aprendendo com eles. Nós somos apenas aqueles que vão incentivar os estudantes a aprender, e isso é ótimo, porque os estudantes são os protagonistas, o que valoriza o trabalho deles”. Para Francielle, o maior impacto foi ter tido contato com áreas tão diferentes entre si e a presença de convidados externos, que mostravam diversas possibilidades de atuação na área de divulgação. Os pesquisadores acreditam que, mais do que um trabalho individual, de uma pessoa só, a divulgação científica precisa ser um trabalho interdisciplinar.  “A natureza dela é de coletividade”, sintetiza Raquel.

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