Mães com crianças em casa vivem o dilema de conciliar trabalho e cuidados com filhos

Publicado originalmente em Brasil de Fato por Júlia Vasconcelos. Para acessar, clique aqui.

“Eu estive até pensando em pegar uma licença sem vencimento do meu trabalho porque tinha, e ainda tenho, muito medo, de expor meu filho ao levá-lo a creche”. Esse é um dos grandes impasses que tem causado preocupação para a mãe de Samuel Ananias, de três anos de idade. Lucimar Rodrigues da Silva, funcionária pública de uma escola municipal de Petrolina, no sertão de Pernambuco, garante que ela e o marido estão seguros da decisão de não levar o filho para a escola, caso retorne ainda este ano. A decisão, porém, vem com o dilema de como conciliar o trabalho e os cuidados com a criança. 

Com o retorno de quase todas as atividades econômicas, Lucimar foi uma das muitas mães que se viu nessa encruzilhada. Antes, a mãe deixava o filho na creche próxima à sua casa. Há cerca de um mês, ela retornou ao trabalho e teve que buscar uma alternativa, que veio com duas preocupações: ser alguém de confiança e com responsabilidade quanto aos cuidados contra a covid-19. 

Enquanto a comunidade sanitária não julga seguro o retorno das atividades escolares, as famílias se veem na necessidade de terceirizar os cuidados com seus filhos. Em muitos casos, para outras mulheres. Foi o caso de Lucimar, que recorreu à sua irmã. “Eu conversei com minha irmã, que também trabalha, mas como autônoma, e ela não se negou em dar apoio. Agradeço a Deus por ainda ter achado alguém que eu pudesse confiar para me dar esse apoio necessário”, explica. 

Já na cidade de Salgueiro, também no sertão do estado, Maiara Neves também vive uma situação similar. Mãe de Ana Sofia, de cinco anos de idade, ela tem tido que driblar o tempo para conseguir dar conta de tudo. “Antes, o horário escolar da minha filha era de acordo com os nossos horários. Agora, ela está sem lugar fixo para ficar. Tem ficado com a avó paterna ou com as tias”. Entre as obrigações diárias, os pais precisam checar a disponibilidade dos familiares para que possam ficar com a filha. Com uma preocupação a mais: a possibilidade de contrair a covid-19. 

Já Susana Silva, mãe de Luna Luise, de quatro anos de idade, é trabalhadora da área de saúde e, portanto, nunca parou de trabalhar. Por isso, teve que lidar com a situação desde o início da pandemia. A filha tem ficado com a avó, que inclusive é do grupo de risco. “Isso me preocupa bastante, mas não temos outra opção”, desabafa a mãe. 

Em meio a tudo isso, todas relatam uma dificuldade em comum: manter atividades educacionais em casa. “Confesso que por mais que eu me esforce, não estou conseguindo dar conta de manter uma rotina de estudos com ela. O livro que a creche disponibilizou já foi todo utilizado e não tenho conseguido buscar atividades rotineiras para desenvolver com ela”, comentou Susana. 

Apesar de seu filho pequeno ainda frequentar a creche, em que o ensino não é obrigatório, Lucimar relata preocupação com o desenvolvimento da criança. “Embora o ensino da creche não seja obrigatório, é importante de qualquer modo para a criança. Ele vai estar pegando habilidades, por exemplo, como a coordenação motora. Atividades que às vezes eu não sei elaborar em casa, e na creche eles já têm a didática certa para cada faixa etária. Eu tenho feito o possível e pesquiso na internet meios de ajudar, muito embora seja corrido porque eu trabalho, cuido da casa e dele”, explica. 

Sobrecarga da mulher e participação no mercado de trabalho

O cenário vivido pelas três famílias traz à luz um problema comum a muitas outras, que é a sobrecarga da mulher. Lidar com a jornada tripla de trabalho, em que as mulheres precisam conciliar vida profissional, com atividades domésticas e o cuidado dos filhos têm sido diferente de acordo com a realidade econômica e social de cada família. Essa situação é refletida nos números de desemprego durante a pandemia, que mostram que as trabalhadoras foram as principais atingidas. Segundo um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, a participação das mulheres no mercado de trabalho é a menor em 30 anos.

Já segundo um levantamento realizado pelo Gênero e Número e SOF Sempreviva Organização Feminista em julho deste ano, foi constatado que 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia e 72% afirmaram que aumentou a necessidade de monitoramento e companhia a alguém. 

Apesar da sobrecarga, a volta das atividades escolares tem sido motivo de preocupação ainda maior para as mães ouvidas pelo Brasil de Fato Pernambuco. O tema é uma situação bastante discutida no estado no último mês. Trabalhadores da educação e governo estadual discordam sobre quando deveria ocorrer o retorno e isso tem gerado greve e decisões judiciais que mudam diariamente. Nesta quinta-feira (08) foram permitidas as aulas presenciais na rede particular a partir desta sexta-feira (09), enquanto o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) e o Governo do Estado anunciaram acordo para suspensão da greve e um possível retorno para o dia 21 de outubro. Esse retorno inicialmente é para alunos do terceiro ano do ensino médio. O ensino infantil e o fundamental seguem em discussão. 

Mas para os pais de Samuel, ainda não é momento de voltar. “Criança não sabe se comportar como um adulto. Um adulto tenta se prevenir e ainda assim corre vários riscos, imagine uma criança em uma escola, em contato com outras crianças, se abraçando, trocando objetos pessoais”, explica Lucimar. E, mesmo havendo o retorno ainda este ano, os pais da criança concordaram que não permitirão que o filho volte. “É melhor se perder um ano, do que se perder a vida de quem a gente ama”, finaliza a mãe. 

Edição: Vanessa Gonzaga

Foto: Agência Brasil

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