Exclusão digital afetou acesso ao auxílio emergencial das classes D e E na pandemia

Publicado originalmente em Agência Bori. Para acessar, clique aqui.

Highlights

  • Estudo da FGV analisou dados do painel TIC-Covid-19, que entrevistou usuários da internet entre junho e setembro de 2020
  • Limitações na qualidade da conexão à internet e falta de celular estão entre as principais barreiras para não receber o auxílio
  • Falta de habilidade em usar o aplicativo da Caixa também afetou solicitação do benefício entre classes menos privilegiadas

Muitos brasileiros não conseguiram receber o auxílio emergencial oferecido durante a pandemia de Covid-19 devido à exclusão digital, revela um estudo do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGVcemif). A falta de habilidade para lidar com dispositivos digitais e as limitações de acesso à internet foram algumas das barreiras encontradas por esses trabalhadores para conseguir o auxílio, que voltou a ser pago no mês de abril de 2021, após interrupção de três meses.

O relatório, antecipado à Bori, mostra, ainda, que trabalhadores das classes D e E foram mais afetados pela exclusão digital com relação ao auxílio. Lauro Gonzalez, coordenador do FGVcemif, lembra que um em cada quatro brasileiros ainda não utiliza a internet, proporção que representa aproximadamente 47 milhões de pessoas. A maior parte está nas classes D e E. “Isso acaba sendo um problema, já que as pessoas dessas classes são justamente aquelas que estão em maior condição de vulnerabilidade social e precisam de políticas de transferência de renda”, destaca González, que é um dos autores do estudo.

Tendo como base os dados secundários da segunda edição do painel TIC Covid-19, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), os pesquisadores aplicaram um questionário com usuários de internet com mais de 16 anos de todas as regiões do país entre junho e setembro de 2020. Dentre estes entrevistados, 38% afirmaram ter conseguido receber o auxílio emergencial. Outros 20% tiveram suas solicitações negadas, ou seja, não receberam o auxílio emergencial. Considerando apenas a porção de pessoas das classes D e E, a porcentagem dos que tentaram solicitar mas não conseguiram sobe para 23%.

Entre os motivos para o não recebimento do auxílio, são apontados tanto barreiras tecnológicas como barreiras cognitivas, como a falta de habilidade de manuseio do aplicativo do programa do auxílio emergencial, disponibilizado pela Caixa. No primeiro grupo estão dificuldades como não ter um celular, não ter um espaço de armazenamento suficiente para baixar ou armazenar o aplicativo e não ter acesso a internet no aparelho. Com relação ao manuseio, temos a falta de habilidade dos solicitantes em baixar e utilizar o aplicativo para a solicitação do benefício.

Exclusão digital com relação ao auxílio é mais forte nas classes D e E

A falta de acesso a um celular é um motivo que afetou quase três vezes mais usuários das classes D e E na comparação com o total dos solicitantes que tentaram pedir, mas não receberam o auxílio emergencial do governo federal. “Cerca de 20% dos usuários de internet das classes D e E apontam indisponibilidade do celular como uma das razões para não conseguir o benefício”, reforça Gonzalez

As limitações no acesso à internet, que afetaram 9% do total de solicitantes, também são bem piores para os usuários das classes D e E, cujo número alcança 22%. Dificuldades pessoais no download do aplicativo para celular da Caixa também aparecem com porcentagem duas vezes maior nas classes D e E (18%) do que o informado pelo total de entrevistados (9%). Ainda, 28% dos usuários destas classes relataram falta de habilidade em utilizar o aplicativo após tê-lo baixado em um aparelho celular contra 12% do total dos entrevistados.

Diante destes dados, os autores frisam que é fundamental que a disponibilização do auxílio emergencial, que é voltado para a população mais afetada pela pandemia da Covid-19, seja realizada em interfaces amigáveis, intuitivas e alinhadas às especificidades dos dispositivos móveis destes usuários. “A formulação e implementação de políticas públicas precisa levar em consideração a realidade da baixa renda no uso de tecnologias, sob pena de não atingir seus objetivos ou promover mudanças ‘para pior’”, alertam os autores do estudo. Além disso, os autores ressaltam a importância do papel das prefeituras e profissionais que atuam em nível local, em contato direto com os usuários dos serviços de assistência social, que podem ajudá-los a manusear o aplicativo.

Apesar de reconhecerem o papel da Caixa na implementação do auxílio emergencial, os pesquisadores se mostram especialmente preocupados com o fato dos aplicativos escancararem a desigualdade socioeconômica do Brasil com relação ao acesso a tecnologias. “A despeito dos progressos inesperados em meio à pandemia, a inclusão digital continua sendo uma promessa para as classes D e E”, concluem.

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