EMISSORAS TAMBÉM SÃO RESPONSÁVEIS PELO ASSÉDIO EM REALITIES

Publicado originalmente em SOS Imprensa por Lucas Guaraldo. Para acessar, clique aqui.

Ao optarem pelo lucro e por fazer vista grossa a casos de violência sexual, canais de televisão abrem mão de sua função social e banalizam situações traumáticas

No dia 25 de setembro, o cantor Nego do Borel foi expulso da 13ª edição do reality A Fazenda. O artista é investigado por estupro de vunerável após, em mais de uma ocasião, assediar sexualmente outra participante do programa, a modelo Dayane Mello. O cantor já responde a um processo de assédio sexual, movido por sua ex-noiva.

Mesmo após a justa expulsão do músico, pessoas que acompanham o programa seguiram criticando a conduta da emissora Record, que convidou uma celebridade com histórico de denúncias de assédio para um confinamento em que isso poderia ser um risco para outros participantes. Além disso, após o ocorrido, a Record publicou nota em suas redes sociais afirmando que analisava as imagens e convidava os telespectadores para acompanhar o desfecho, que seria anunciado no episódio daquele dia, ao vivo.

A decisão da emissora de convidar Nego do Borel para o reality foi polêmica desde o início. Apesar de sua carreira de sucesso como músico, é inegável que a atenção direcionada à Nego em seu término com a blogueira Duda Reis, que o acusou de assédio, violência doméstica e estupro de vulnerável, foi fundamental para a entradada do cantor no programa. Duda tinha 19 anos na época.

A forma como a expulsão foi anunciada também foi alvo de críticas. Espectadores apontaram que a emissora omitiu cenas importantes para compreender o episódio, como os pedidos de Dayane para que o cantor parasse. Também surgiram denúncias de que a cúpula da Record não foi unânime na sua decisão de expulsar o cantor, e precisou da pressão de patrocinadores para se posicionar contra o estupro.

Não é a primeira vez que A Fazenda conta com participantes envolvidos em casos de assédio e violência doméstica. Ano passado, o cantor Biel foi não só um dos participantes, como também um dos finalistas da edição. Em 2016, Biel foi acusado de assediar uma repórter durante entrevista e, em 2018, sua ex-esposa o acusou de violência física, sexual e moral.

Além disso, a maneira como a emissora lidou com as denúncias, tentando lucrar com a situação e cedendo apenas quando esse lucro foi ameaçado, retoma o debate a respeito da espetacularização de violência e estupro na mídia.

Ao misturar acusados de assédio e violência, pessoas alcoolizadas e câmeras que transmitem 24h por dia, programas como A Fazenda apostam em brigas e “barracos” como forma de trazer audiência. A violência na TV vende e melhor ainda se ela for ao vivo e sem cortes. Ao banalizar esse tipo de situação, emissoras esticam cada vez mais a corda, que inevitavelmente se rompe em casos que expõem desproporcionalmente as vítimas desses assédios, que passam a conviver com imagens de seu trauma espalhadas pela internet.

No Brasil, emissoras de televisão operam em um sistema de concessão pública e têm o dever de cumprir um papel social em sua programação. Por estarem submetidas à análise política e do espectador, empresas que se comportam como a Record se comportou, deveriam, no mínimo, ser alvo de debate e punições deveriam ser estudadas.

No entanto, a Record é comandada por líderes religiosos e proprietários de igrejas evangélicas, o que, apesar de inconstitucional, blinda sua concessão contra qualquer tipo de ameaça política. Além de lucrar muito com as verbas de publicidade do Governo Federal, a emissora também age como cabo eleitoral para a bancada evangélica em ano de eleição, e tem grande poder na alta cúpula do governo.

Apesar dessa blindagem, o debate deve seguir. Precisamos entender que, por mais que Nego do Borel seja o culpado pelo estupro, a emissora que o convidou para o programa, sabendo do risco em que colocava as participantes, não deve ser esquecida. Dayane não foi a primeira vítima do modelo de negócios da Record, e provavelmente não será a última se as medidas cabíveis não forem tomadas.

Por muito tempo as televisões no Brasil têm sido tratadas como simples empresas privadas, que não devem nenhum tipo de satisfação ao público. A atuação política dessas empresas não pode seguir funcionando como barreira para que suas ações sejam julgadas, debatidas e condenadas. Caso continuem impunes, colhendo o lucro que parte da atenção criada ppor esses episódios, continuaremos assistindo, horrorizados, a criação de novas vítimas de abuso sexual em rede nacional.

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