Dos quadrinhos às novelas gráficas: um passeio entre o folclore e questões sociais

Publicado originalmente em OBJORC por Anderson Costa. Para acessar, clique aqui.

Uma análise sobre a abordagem do Coletivo Nonada quanto a desigualdade urbana e orixás

Qual a sua primeira história em quadrinhos? Falo sobre o primeiro momento em que você pôde fazer correr os olhos sobre aquelas ilustrações vivas e balõezinhos com diálogos que te entretinham. Não sei se isso ocorreu ainda durante a sua infância ou um pouco mais à frente. Sei que em meu caso, há tempos não lembrava deste primeiro momento de deslumbramento com as HQ’s. Me despertou a lembrança e até um retorno à infância o material produzido pelo Coletivo de jornalismo cultural e alternativo Nonada.

Descobri na reportagem em questão ‘Novelas gráficas brilham com temas como desigualdade urbana e orixás’, que os quadrinhos que me acompanharam em tantos momentos na infância também são chamados, em alguns casos, de Novelas Gráficas. Mas esse texto não trata de uma rememória minha, embora tenha compartilhado com você um pouco dela, numa tentativa de talvez também despertar a sua. Esse texto trata da forma como o Nonada discorreu, mesmo que em breves linhas, sobre Novelas Gráficas que versam acerca da desigualdade urbana e dos orixás no Brasil.

As temáticas por força própria já merecem destaque, ainda mais considerando aquilo que o coletivo Nonada se dispõe a fazer. A descrição do coletivo na seção ‘Sobre’ do seu site já adianta ao leitor o propósito dos materiais produzidos: “Desde 2010, procura relacionar as diversas formas de expressão artística com temas relativos aos direitos humanos”, característica base para a construção de narrativas humanizadas e valorização da cultura. Então, ao narrar parte da história e do processo produtivo de quem, através das histórias em quadrinhos, toca nas temáticas de desigualdade urbana e orixás no Brasil, abre espaço para um debate mais amplo através do destaque dado a essa forma de produção cultural.

Quem assina a matéria e constrói a narrativa é Thays Seganfredo, que escolhe iniciar sua história contando como a tradicional lenda do Negrinho do Pastoreio é ressignificada pelo roteiro de Rodrigo Dmart e ilustrações de Indio San. Antes disso, destaca o momento de retomada do mercado editorial com as Novelas Gráficas, ainda em um contexto pandêmico, o que evidencia a resistência da produção cultural em momentos hostis. A lenda do Negrinho do Pastoreio, que antes ganhava traços cristãos, agora convida o leitor a olhar para o personagem principal como um Elemental, entidade espiritual relacionada aos elementos da natureza, deixando de lado os traços marcados por um país que à época era essencialmente cristão e abrindo espaço para o fortalecimento da religiosidade de matriz africana.

“A lenda do Negrinho do Pastoreio, que antes ganhava traços cristãos, agora convida o leitor a olhar para o personagem principal como um Elemental, entidade espiritual relacionada aos elementos da natureza (…) abrindo espaço para o fortalecimento da religiosidade de matriz africana.”

É importante o destaque ao Negrinho do Pastoreio e a intersecção com a religiosidade de matriz africana, porém, deixa-se de aprofundar a temática e contribuir para que o leitor expanda a visão das duas. O raio, elemento que aparece junto ao Negrinho do Pastoreio na ilustração de Indio San, reproduzida no material da Nonada, carrega um significado que pode e deve ser compartilhado com o leitor. Raio que é o elemento de Iansã, Orixá, que, como canta Gilberto Gil é rainha dos raios: “Senhora das Nuvens de Chumbo. Senhora do Mundo”.

Em sua segunda metade, a matéria destaca ‘Beco do Rosário’, HQ lançada em setembro de 2020 e que traz em suas páginas a Porto Alegre dos anos 1920. Como todo recorte histórico, parte de um determinado enquadramento da realidade. Beco do Rosário tem como pano de fundo a desigualdade social e o urbanismo da sociedade local naquele período. O roteiro e ilustrações da trama ficam por conta da mestre em arquitetura Ana Luiza Koehler e são fruto da pesquisa realizada no mestrado do Programa de Planejamento Urbano e Regional da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, e de projetos de reconstituição arqueológica que fazia na cidade.

Embora a matéria de Thays Seganfredo traga apenas dois exemplos de HQ’s, toca em temáticas que necessitam de exposição e debate na mídia, seja tradicional ou independente. É um convite que se faz a revisitar momentos históricos importantes e da construção da identidade cultural brasileira. É um exemplo da busca que o bom jornalismo faz de evidenciar faces distintas de um relato ou acontecimento. Tanto é que, a matéria traz duas entrevistas em formato de áudio, disponíveis para que o leitor mergulhe no modus operandi dos autores Rodrigo Dmart e Luiza Koehler e compreenda melhor o processo de produção literária e cultural. É importante também ressaltar que as duas obras são financiadas uma pela iniciativa pública e outra pela iniciativa privada, o que reforça a necessidade de investimentos para a manutenção e expansão da produção cultural nacional. Ainda assim, a matéria poderia se aprofundar tanto nas obras quanto no contexto que se desdobra a partir delas. Talvez, uma boa opção fosse a própria pesquisa por iniciativa da jornalista que produziu a matéria, trazendo outras faces e personagens com propriedade de fala acerca das temáticas que as HQ’s levantam. Neste sentido, seria interessante, por exemplo, trazer a fala de um ou mais representantes de diferentes vertentes religiosas de matriz africana, afim de aprofundar questões que nem sempre são de conhecimento prévio do leitor, como a ciência sobre o que são os Orixás — humanos que foram divinizados e ligados a um elemento da natureza.

O jornalismo diante de oportunidades como essa de destacar produções culturais também pode expandir os próprios horizontes, enxergando outras possibilidades de contextualizar e inserir a cultura e as temáticas que ela trata no cotidiano das pessoas. Uma tentativa, talvez de ajudar o leitor a enxergar-se se não no processo de produção cultural, mas como integrante da realidade que possibilita essa produção direta ou indiretamente.

A matéria original “Novelas gráficas brilham com temas como desigualdade urbana e orixás” pode ser encontrada em: http://www.nonada.com.br/2020/08/novelas-graficas-brilham-com-temas-como-desigualdade-urbana/

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