Desinformação: os desafios conceituais

Publicado originalmente em Acesse Piauí por Ana Regina Rêgo. Para acessar, clique aqui.

Lançamos recentemente a Rede Nacional de Combate à Desinformação-RNCD com a adesão de projetos, instituições, coletivos, observatórios, movimentos populares e diversas outras iniciativas que estão no front de combate às narrativas que tem como intencionalidade induzir o público a desenvolver uma determinada aderência a determinado pensamento, opinião, ideologia ou mesmo mercadoria, se utilizando de uma composição híbrida que inclui mentira, mas também fato, que inclui imprecisões, mas também manipulações, que inclui descontextualizações espaciais e temporais, mas também fraudes com uso de tecnologias como a deepfake da qual, também, já falamos neste espaço opinativo.

Pois bem, a articulação e criação da RNCD foi realizada ao longo dos seis primeiros meses de pandemia no Brasil e reflete não somente nossa inquietação com o que denominamos de mercado intencional de construção da ignorância, do qual as narrativas desinformacionais fazem parte como produto condutor, mas também fruto de uma reflexão em dois eixos, um de investigação científica sobre as dimensões do fenômeno e outro de observação social direta a partir de projetos desenvolvidos dentro do PPGCOM-UFPI como o http://nujocchecagem.com.br/ e da parceria que fizemos com o aplicativo http://www.eufiscalizoapp.com.br/ da Fiocruz que nos permitiu uma visualidade e acompanhamento maior dos grandes malefícios da desinformação nas sociedades, sobretudo, acompanhando os anseios da população que pede ajuda quando possuem dúvidas sobre as informações que recebem.

Mas e a escolha pelo vocábulo desinformação? E que conceito de desinformação estamos utilizando? Para além de outros pesquisadores em nível mundial cujas pesquisas temos abordado de forma recorrente nesta coluna e que nos acompanham na escolha, a nossa  opção tem amparo em nossas reflexões.

À primeira vista a escolha parece ser não consciente e somente empírica visto ser uma palavra aparentemente naturalizada e recorrentemente usada no cotidiano, para descrever o conjunto de narrativas que para além das imprecisas e infundadas fake News, reúne também um grande contingente de narrativas que estão incitando a cultura do ódio, polarizando as opiniões em nível social, dividindo a sociedade, exacerbando a influência de uma fala de um Deus incontestável, potencializando o machismo, a homofobia, a misoginia e o racismo, dentro outros aspectos que tem tornado a vida em sociedade mais complicada.

Mas, em nosso olhar, a desinformação para além de um conceito (complicado ou não) é antes, um fenômeno, ou melhor, a outra face da moeda do fenômeno da informação. Enquanto fenômeno estão interligados, embora a face visível sempre apareça como informação e não como desinformação, nesse sentido, cabe a nós revelar o quê, dentro de uma narrativa que se diz informativa há de desinformação, há de desvios intencionais, há de fraudes, há de mentiras.

Utilizo aqui o conceito de fenômeno colhido em Edmund Husserl que  o visualiza como algo que somente se revela completamente quando ocorre um necessário descobrimento do encoberto, uma revelação do que está escondido e, portanto, vejo na fenomenologia os caminhos e  possibilidades de revelação do que compõe a essência dos fenômenos, mas que não se mostram na aparência verdadeira, deixando visível somente como semblância, pensando com Hannah Arendt, ou seja, mera aparência. Logo há aí, uma dualidade das faces do fenômeno da informação, cujas dimensões também são compartilhadas, mas que apresentam dissidências essenciais, entre informar e desinformar, desviando a intencionalidade da construção original do sentido do informar, manipulando o compreender e o interpretar, porque o pretenso conhecimento transmitido é, em verdade, um contraponto que o nega.

Contudo, temos que reconhecer que se limitarmos informação e desinformação a aspectos conceituais que são em si, temporalizados e contextualizados, e, desconsiderarmos sua historicidade constituída ao longo da história da humanidade, é certo que visualizaremos sua carência. Para muitos acadêmicos o conceito de desinformação é problemático porque em si, carrega alguma informação independente da sua composição e intencionalidade.

Todavia, pensando em informação como um conceito vinculado às constituições dos regimes de verdade da modernidade, vamos ter não somente como algo vinculado ao sentido de conhecimento comunicado que ganhou relevância com os três topoi da modernidade( tempo novo, aceleração do progresso e disponibilidade da história), mas, principalmente, com o avanço da sociedade tecnológica após o término da Segunda guerra mundial que por sinal, compôs os pilares da modernidade.

Nesse sentido é o desenvolvimento das tecnologias a partir da internet que vem  potencializar o uso das informações, mesmo que reconheçamos que a informação e suas formas de comunicação sejam fenômenos essenciais a toda sociedade desde sempre. A ciência da informação em seu agregado escopo tecnológico se torna intrínseca à vários outros campos do conhecimento.

Assim, considerando que em nosso contexto de mercado da construção intencional da ignorância, como dito, nos deparamos com narrativas que muito mais desinformam do que informam, pensando aqui em sua acepção inicial de conhecimento comunicado, ou seja, composto por narrativas que em si, não compartilham conhecimento ( outro conceito que sei teremos que nos debruçar desde Aristóteles), mas sim formas narrativas que apelam para o sensível, para o gosto, para os valores e para as crenças, sem um correspondente no conhecimento acordado como benéfico ao coletivo social.

E aí nasce nova indagação que está na raiz das ideologias (sobre este conceito já trabalhamos muito nesta coluna) dos negacionismos, qual seja: Qual o conhecimento que seria benéfico ao coletivo? Por que assim foi escolhido e por quem? E vamos caminhando para um paradoxo nietzschiano que nos levará a um debate instigante e concernente à ciência, métodos e verdade, trabalhados por nós no ambiente acadêmico.

Mas, por enquanto, paramos por aqui. O conceito de informação como conhecimento comunicado empiricamente utilizado no presente, compreendido como esse gap entre a experiência e a expectativa, não limita o nosso olhar sobre o fenômeno da informação e seu lado intencionalmente mascarado, que optamos por denominar desinformação. Em ambos os lados, como trabalhamos no artigo da semana passada, a multidimensionalidade que compõe sua essência se faz presente, da história à política, da educação à comunicação, da verdade às contestações do método, da tecnologia à psicologia, do mercado aos usuários.

Acreditamos que muito há para se trilhar no revelar do fenômeno que para além de informacional é também desinformacional, a nosso ver, e, portanto, debates sobre os desafios conceituais ainda serão necessários.

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