CPI reproduz um sistema midiático hiperfragmentado

Publicado originalmente em ObjETHOS por Álisson Coelho. Para acessar, clique aqui.

“(Tun tá) capricha Renan, vai, capricha, capricha. Capricha Renan, vai, capricha, capricha. Efetivamente eu vou caprichar. Efetivamente eu (boladão) pi-piriri-piriri”.

Pra quem não sabe do que se trata a tentativa de descrição acima, adianto que o editor do objETHOS não enlouqueceu e até onde me consta eu também não (até o momento). O trecho citado é de uma fala do senador Renan Calheiros transformada em funk pelo editor do podcast Medo e Delírio em Brasília, Cristiano Botafogo. O remix pancadão da fala de um dos mais antigos senadores da República (Calheiros está no Senado desde 1995) viralizou há cerca de duas semanas e foi notícia na Folha de S. Paulo.

Calheiros (MDB/AL) se referia à CPI da Pandemia da qual é relator, responsável por apresentar o parecer final sobre o caso analisado. No que diz respeito à CPI da Pandemia, Calheiros apresentará um relatório sobre as “ações e omissões do Governo Federal no combate à pandemia”. Terá muito o que escrever. Nessa função o senador por Alagoas tem papel de destaque, tendo tempo livre para fazer todas as perguntas que quiser aos depoentes.

Diz a letra fria da constituição que CPIs servem “para a apuração de fato determinado e por prazo certo”. Na prática, no entanto, mesmo as mais efetivas tornaram-se amplos shows midiáticos. Nas palavras dos mais jovens, elas servem para “dar palco” a senadores, deputados ou vereadores que sempre focaram sua atuação nessas comissões com os olhos voltados para as manchetes do dia seguinte e para minutos preciosos de exposição em telejornais. Até agora.

Memes, lives no Instagram, threads no Twitter, transmissões na Twitch, stories, textões no Facebook, torcidas e discussões. Poderia ser o Big Brother Brasil, mas é a CPI. Há uma clara migração do debate público que saiu do reality show da TV Globo para os depoimentos no Senado. Há, inclusive, disputa nas redes em torno de qual o senador que está tendo melhor desempenho. Virou atração, tem um tanto de circo, mas é a investigação que pode mostrar os motivos pelos quais milhares de brasileiros morreram. Tudo isso faz parte desse imenso caldeirão comunicacional.

A CPI da Pandemia é a primeira a operar dentro de uma lógica comunicacional completamente nova. Não apenas pelo momento em que é realizada, mas pelo apelo que tem. A CPMI das Fake News, por exemplo, instalada em setembro de 2019, foi realizada no mesmo cenário do ponto de vista da circulação da informação, mas nem de longe foi afetada por esse momento da mesma forma. A CPI da Pandemia é um fenômeno comunicacional com características únicas, sobre as quais falaremos nessa série de textos. Como me tocou escrever o primeiro deles, faço uma tentativa canhestra de sobrevoo e gostaria muito de que essa análise fosse complementada.

As redes interrogam

Os processos de circulação da informação no contexto da CPI mostram como os atores desses processos foram reposicionados e passam a ter múltiplos papeis. Calheiros, por exemplo, dedica parte do seu tempo a fazer perguntas “enviadas pelos internautas”. Na verdade, o que se vê é que a maior parte dos questionamentos vêm de perfis no Twitter como @jairmearrependi, @tesoureiros (Tesoureiros do Jair) e @bolsoregrets (Bolsominions Arrependidos), motivando uma bem humorada tirinha de Leandro Assis e Triscila Oliveira na Folha.

Não há informação de outra CPI no Brasil, talvez no mundo, em que questionamentos às testemunhas tenha sido influenciados em tempo real pelo público na internet. Além de perguntas, esses atores ainda têm uma série de funções: fazem checagens de respostas em tempo real, circulam vídeos e trechos de falas, interagem com os senadores (ou os seus assessores) diretamente. São sujeitos ativos no debate público e em tudo o que se faz dentro do Senado. A CPI e os senadores estão nas redes e as redes estão na CPI. Hoje, são indissociáveis.

Esse alargamento dos canais de interação tem impacto direto no jornalismo. Em contraponto à esfera pública da chamada era dos meios, é visível a perda do protagonismo da mídia tradicional na hora de construir a realidade publicamente relevante no que diz respeito aos trabalhos da CPI. Essa construção se dá também online nas plataformas de redes sociais digitais e inclui uma enorme quantidade de atores: blogs, perfis em redes sociais, podcasts e muitos outros.

A cobertura da CPI está completamente pulverizada. O próprio podcast Medo e Delírio em Brasília, que abre esse texto, produz um resumo quase que diário dos depoimentos e muitos seguidores do programa no Twitter afirmam saber dos depoimentos exclusivamente através da sua edição. Assim como ele, diversos outros hoje entrevistam senadores, debatem a CPI, e ajudam a formar a ideia que o público tem do que está acontecendo. Isso não significa que o jornalismo tradicional não faça parte do debate ou não seja importante. O jornalista não é uma ilha. Ele absorve esse conteúdo em rede, observa essas interações e leva isso para dentro da cobertura. Observando os debates diários na GloboNews, por exemplo, é comum que os comentaristas repercutam o que se diz pelo público nas plataformas. O funk que abre esse texto foi tocado para o próprio Renan Calheiros pela jornalista Malu Gaspar. E Renan gostou.

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