Como tirar sentido do caos? Dominguetti na CPI da covid

Publicado originalmente em ObjETHOS por Vinícius Augusto Bressan Ferreira. Para acessar, clique aqui.

Desde o lançamento do livro Opinião Pública de Walter Lippmann (1922) nos Estados Unidos, muita gente que estuda jornalismo tem teorizado e discutido sobre o papel dos conteúdos jornalísticos em ajudar as pessoas a “fazer sentido do mundo”. Críticas à parte sobre o quão protagonista o jornalismo é nesse processo de construção de sentido das pessoas, nesta última semana fiquei pensando sobre aquela parte importante do trabalho de jornalista que consiste em analisar informações que foram apresentadas de forma mais ou menos desconexa e organizá-las para apresentar ao público de uma forma coerente. Sem isso as matérias obviamente não iam passar de um grande “catadão” de informações, tipo um caderno de rascunhos, e boa sorte de quem tentasse ler/assistir/ouvir aquilo.

O que me chamou a atenção para isso foi a cobertura da mídia do caótico depoimento de Luiz Dominguetti à CPI da Covid na quinta-feira passada, 01/07. Quem não tem acompanhado a CPI tão de perto provavelmente terminou o dia meio confuso e tem motivo para isso, já que mesmo entre profissionais da imprensa que estão trabalhando nisso, a construção de sentido claramente foi difícil de fazer. Dominguetti era um desconhecido do Brasil, inclusive dos senadores que conduzem a CPI, até a terça-feira, 29/06, quando a Folha de S. Paulo publicou uma matéria feita pela Constança Rezende, intitulada “EXCLUSIVO: Governo Bolsonaro pediu propina de US$ 1 por dose, diz vendedor de vacina”.

Da “bomba” da Folha ao depoimento

A matéria naturalmente atraiu a atenção do país inteiro. Se as denúncias de suspeitas sobre a compra da Covaxin sendo ignoradas pelo Presidente da República já haviam direcionado o foco da CPI, da imprensa e de boa parte da sociedade para as evidências de que o governo federal esteve envolvido em esquemas ilícitos para compra das vacinas, agora estávamos falando de alguém delatando um pedido aberto e escancarado de superfaturamento. De ilustre desconhecido na terça de manhã, para convocado pela CPI na quarta-feira.

Em um primeiro momento o depoimento havia sido marcado para sexta, 02/07, porém em uma ação que pode ser considerada uma demonstração da óbvia importância que os senadores da comissão davam ao assunto, deram um jeito de reorganizar a agenda para adiantar o compromisso, que ia ganhando ares cada vez mais rocambolescos conforme os jornalistas passavam o dia 30/06 buscando novas informações sobre o caso e tentando organizá-las para apresentar uma narrativa com sentido para o público.

O trabalho resultou em matérias como essa: Saiba quem é Dominguetti Pereira, homem que denunciou suposto esquema de corrupção no governo Bolsonaro, feita por uma equipe da TV Globo/G1, em que o delator identificado como “vendedor de vacina” pela matéria-denúncia do dia anterior era um policial militar lotado em Alfenas/MG, a mais de 900km de Brasília, com 37 processos na Justiça, incluindo casos dignos de um “manual do golpista”, como um em que uma pessoa acusa Dominguetti de ter comprado um carro financiado em seu nome e depois sumido levando o veículo, deixando a dívida e uma série de multas para a autora do processo. Também teve essa aqui: Davati Medical diz que Dominguetti não é seu representante no Brasil, publicada pela Denise Chrispim e pela Gabriella Soares no Poder 360, que levanta sérios questionamentos sobre a legitimidade que Dominguetti teria para ser apresentado como “vendedor de vacinas”. Aliás, não só sobre a legitimidade dele como da própria empresa estadunidense, Davati, já que nessa mesma matéria menciona-se uma nota da fabricante de vacinas AstraZeneca, em que o laboratório afirma não ter autorizado nenhuma empresa a intermediar vendas de vacinas no Brasil.

Assim, acordamos no dia seguinte com matérias como CPI antecipa depoimento de Dominguetti para esta quinta-feira, do Israel Medeiros no Correio Braziliense. Pouco mais de 24h depois de o nome de Dominguetti ter aparecido pela primeira vez para o público, a história que já tinha começado com denúncia de tentativa de superfaturamento na compra de vacinas conseguia ficar ainda mais nebulosa quanto mais se cavava. E é claro que, sendo a política brasileira essa ode ao absurdo que nunca se cansa de superar a si mesma, o depoimento não podia deixar de ter uma “surpresinha”.

Durante o depoimento, Dominguetti menciona que Cristiano Carvalho, o representante que também está envolvido na negociação que deu origem à denúncia, e que de  fato possuía procuração da Davati, tinha lhe dito que recebia muitas mensagens de congressistas interessados em participar das negociações de vacinas. Na narrativa apresentada por Dominguetti, Cristiano reclamava de um deputado especialmente insistente nisso, Luís Miranda, e enviava a Dominguetti um áudio do deputado supostamente relacionado à compra e venda de vacinas. Assim chegamos ao momento mais famoso da sessão de 01/07 da CPI.

Dominguetti toca o fatídico áudio durante a sessão, como você pode ver neste link do iG, em que Pedro Jordão e Carlos Eduardo Vasconcellos fizeram a cobertura ao vivo do depoimento. Não pretendo analisar detalhadamente o áudio, coisa que já foi feita pelos jornalistas que cobriram o fato, mas vale mencionar que em nenhum momento Miranda diz a palavra “vacina” e que a lógica usada por Dominguetti para argumentar que o deputado falava do irmão, Luis Ricardo Miranda, também envolvido na denúncia da compra da Covaxin, era absolutamente cômica (e sim, o nome do irmão do deputado Luis Miranda é Luis Ricardo Miranda, como se os jornalistas na cobertura da CPI já não tivessem confusão suficiente para explicar).

A partir daí foi um legítimo deus-nos-acuda que incluiu, entre outras coisas, a pessoa que enviou o áudio desmentindo que fosse sobre vacinaso deputado Luis Miranda indo até o Senado para apresentar a íntegra do áudio;apreensão do celular e ameaça de prisão para Dominguettimanifestação do senador, e filho do presidente, Flávio Bolsonaro, para que a Polícia do Senado não examinasse nada além daquele áudio no celular de Dominguetti;e o senador Rogério Carvalho resgatando postagens claramente bolsonaristas e “antiesquerda” para questionar as intenções de Dominguetti.

E agora, qual a história que estamos contando?

Enquanto essa confusão se desenrolava, o senador Rogério Carvalho não foi o único a levantar a suspeita de que Domiguetti estivesse de alguma forma vinculado à Jair Bolsonaro, participando de uma estratégia para desacreditar e desviar a atenção da denúncia apresentada anteriormente pelos irmãos Miranda (oh não! Mais uma cortina de fumaça). O mesmo questionamento foi feito pelos senadores Fabiano Contarato, Eliziane Gama, Renan Calheiros e Omar Aziz, além do próprio deputado Luis Miranda, que disse aos jornalistas que aquilo era uma armação.

E acredito que é aí que podemos observar a importância desse processo de análise, seleção e organização das informações por parte de quem faz jornalismo. Alguns dos profissionais da imprensa parecem ter se convencido completamente da narrativa de que Dominguetti é um “agente da presidência”, como João Filho em sua coluna no The Intercept Brasil e Pedro Daltro em seu blog Medo e Delírio em Brasília. Outros, como Leandro Colon no podcast Café da Manhã e Thais Bilenky no podcast Foro de Teresina não consideraram que as evidências de desonestidade por parte de Dominguetti eram prova de que sua delação não era verdadeira, inclusive lembrando que é comum que grandes escândalos da política sejam delatados por pessoas que também cometem ilegalidades. Ambas as posições sobre a denúncia tem embasamento válido, seja para concluir que não se pode levar a denúncia de Dominguetti a sério, pois ela é uma distração do verdadeiro caso, da Covaxin, quanto para concluir que não podemos descartar uma denúncia que possui indícios, independente da falta de confiabilidade do delator. O que acredito que nossa imprensa não pode perder de vista é a importância de, na corrida contra o tempo para estabelecer rapidamente um sentido para o público a partir de uma situação caótica, não deixar passar batido os argumentos contrários.    

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