À DERIVA NUM MAR DE NOTÍCIAS

Publicado originalmente em Viva Bem do Uol por Sibele Oliveira. Para acessar, clique aqui.

Informações na internet e fora dela parecem infinitas, ao contrário do tempo que temos para acompanhá-las

Flavio Paulino, 34, tinha um vício que o deixava muito ansioso. Não um “ruim”, como o de álcool ou drogas, mas outro considerado “bom” por muita gente: ele era dependente de informações. Queria aprender novas tecnologias para aprimorar seu trabalho, devorar livros, acompanhar as tensões políticas no Brasil e as demais notícias que encontrava pela frente. No entanto, uma sensação de mal-estar o levou a ser mais moderado.

Para não se afundar no oceano de textos, imagens e sons que imergia na tela do celular, o designer de software silenciou parte de seus contatos nas redes sociais e limitou o tempo que se dedica às informações. Além disso, passou a ser mais crítico em relação ao que lê e ouve, filtrando o que é confiável e o que realmente lhe interessa.

Para ele, as informações são mais interessantes do que séries e filmes, mas nem por isso se sente à vontade com o excesso de conteúdo. “Não acho que isso seja uma coisa positiva. Vivemos bombardeados por novas informações, uma vai anulando a outra e, quando a gente percebe, está praticamente anestesiado. Nada nos choca, nada nos toca. Como acontece com as notícias da pandemia”.

Um desconforto compartilhado por todos nós. Afinal, nunca tivemos acesso a uma quantidade tão grande de informações como agora. Elas se espalham como água nas redes sociais, e-mails, livros, jornais, revistas, sites, podcasts, programas de rádio e de televisão.

O lado negativo dessa enxurrada de conteúdos é objeto de pesquisa de estudiosos como o físico espanhol Alfons Cornellá, que cunhou o neologismo “infoxicação”, uma mistura de informação com intoxicação. O psicólogo britânico David Lewis criou o termo “síndrome da fadiga informativa”, para nomear as reações de ansiedade, paralisação e dúvidas que surgem quando nos vemos diante de tantos estímulos que não damos conta de processar.

Fica a pergunta: será que o excesso de informações é um mal dos tempos modernos?

O segredo está no cérebro

A abundância de informações que temos hoje é como uma vitrine repleta de doces apetitosos competindo para chamar a atenção do nosso cérebro. Mas o que faz um deles ganhar? Não é um processo simples, tanto que a ciência continua pesquisando como elas são codificadas e editadas em nossa mente.

O que se sabe é que há vários mecanismos de memória que estabelecem caminhos —redes de conexões neuronais — até chegar ao objetivo final, que é captar o estímulo. Nesse trajeto não é só a informação que conta, mas também a carga emocional embutida nela. Ou seja, não basta ela ser interessante para vencer a disputa, também precisa tocar de alguma forma quem a recebe.

Isso faz com que o nosso cérebro registre apenas parte das milhares de informações que nos rodeiam. É importante salientar dois aspectos de uma informação que penetra bem. Primeiro a que chama a atenção e ativa todo um sistema, tanto neural quanto endócrino, ligada à busca de uma melhor apreensão. Então, é gerada uma cadeia de respostas que vai dar à pessoa uma maior atenção àquela informação. “E também tem um mecanismo emocional ligado a isso. As informações que têm um conteúdo emocional impactante penetram mais e têm uma chance maior de persistir por mais tempo”, diz Natalia Mota, neurocientista da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Para entender melhor, imagine que você estuda em uma escola onde há várias aulas seguidas e os professores transmitem o conteúdo de maneira fria e desinteressante. Nesse caso, é grande a probabilidade de esquecer muito do que foi ensinado no fim do dia. Ao passo que aulas dinâmicas e divertidas, como as dos cursinhos pré-vestibulares, derrubam as barreiras do aprendizado. O mesmo acontece com as informações que consumimos no dia a dia. Como o nosso cérebro gosta de novidades e de emoção, as que são inéditas, que mexem conosco e com as quais nos identificamos são as que mais despertam a nossa atenção.

Mas não é porque elas nos atraem que necessariamente vão nos fazer bem. “O excesso de informações de conteúdo emocional muito impactante gera um estresse e a pessoa tem uma reação em cadeia em resposta a isso. O nível de cortisol é elevado e o corpo responde. Pode ter uma descarga de adrenalina relacionada a isso, mesmo que pequena”, explica Mota. É o que acontece com as notícias de tragédias, que nos deixam tão mal. Com o tempo, porém, acontecimentos dramáticos repetidos à exaustão fazem algumas pessoas se acostumarem a eles, como se perdessem a sensibilidade.

Ao contrário do que muita gente pensa, não há um limite de informações que podem ser incluídas em nossa mente. “Isso é algo reciclável no cérebro. Não ficamos estocando as informações a todo momento. A forma como a gente as armazena é extremamente plástica, flexível”, diz a neurocientista. De acordo com ela, na verdade, quanto mais o cérebro aprende, mais ele sabe aprender. “É como se fosse um exercício de ir cada vez mais se preparando para encadear uma informação na outra e assim sucessivamente”.

O que faz mal é tentar assimilar toneladas delas de uma só vez. É impossível dividir a atenção em mil para tantos estímulos que nos cercam o tempo todo, principalmente quando estamos com a cabeça cheia de pensamentos e preocupações. Conclusão: essa chuva de informações não é registrada na nossa memória. Do mesmo jeito que não conseguimos executar bem várias tarefas em um só momento, também é nocivo para o cérebro entupi-lo com o que desperta em nós reações ou sentimentos negativos.

Ficamos mais inteligentes ou superficiais?

Em uma entrevista, o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman citou a frase do biólogo Edward O. Wilson: “Somos inundados de informação e famintos por sabedoria”. Bauman disse que o principal obstáculo que enfrentamos em direção ao conhecimento é o excesso de informações, que não temos a capacidade de assimilar. Uma ou outra não nos faz conhecedores de um determinado assunto, afirma Roberto Romano da Silva, professor de filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). “Conhecimento é uma operação complexa da mente e do corpo que exige uma série de técnicas, como a aplicação da lógica, da verificação empírica dos dados, comprovação, experimento etc. A pessoa não tem conhecimento porque recebeu uma informação”.

Silva cita como exemplo a palavra “quântico”, que muita gente acredita saber o significado, quando são necessários anos de estudo para compreendê-la a fundo. Informações encontradas em sites da internet —os que têm credibilidade — devem ser apenas o ponto de partida para conhecer a teoria quântica ou qualquer outra. É o primeiro degrau de uma escada alta. “Platão mostra que existem graus de conhecimento. O mais baixo, diz ele, é por ouvir dizer. Alguém fala alguma coisa e a pessoa tem uma espécie de prelúdio ao conhecimento. Mas, na verdade, tem que subir a escala dos saberes até chegar à ciência”, diz o professor.

Não existe mágica para adquirir saberes, até porque o processo cognitivo não é algo imediato. E não basta embarcar nessa longa jornada do aprendizado sem pular etapas. Ser criterioso ao escolher as fontes de ensino e de pesquisa também faz diferença nesse processo. É assim que se aprende de verdade, e não pinçando informações aqui e ali, acumulando centenas de livros na estante de casa sem sequer folheá-los, ou decorando meia dúzia de citações de autores importantes para reproduzir durante o happy hour. Isso é apenas um jogo de palavras para impressionar.

Silva diz que esse pseudo-saber vem de longe, mas está mais presente do que nunca em nossos dias. “Não adquirimos sabedoria usando muitas palavras, muito discurso. A sabedoria é um final relativo. Quando terminamos uma pesquisa, temos muitas dúvidas que são espécies de aguilhões que nos levam a pesquisar mais”. O problema é que as palavras andam banalizadas atualmente. São usadas de qualquer jeito, sem pensar. Michel de Montaigne, filósofo, escritor e humanista francês, dizia que é importante pesar as palavras antes de passá-las adiante. Se seguirmos esse conselho, não sairemos por aí repetindo o que não sabemos de fato, enganados pela ilusão de conhecimento que a internet oferece.

Em uma época em que poucas linhas escritas nas redes sociais são valorizadas, conhecimentos rasos viralizam e os saberes profundos encontram pouco espaço. Como as informações importantes teoricamente não vão sair da internet, muita gente não se dá ao trabalho de gravá-las na mente. “Se a pessoa não tem capacidade intelectual de memorizar na cabeça, não adianta ter milhões de terabytes no seu backup. O que ela está fazendo com aquilo tudo? Nada. O backup real deve ser a mente, e não o que está fora. A memória do computador é auxiliar, mas não pode ser o elemento essencial. Se a pessoa acumula muitas informações no seu backup e não as pesa, aquilo não serviu para nada”, observa Silva.

Terceirização da memória

Os dados que antes registrávamos na nossa mente hoje habitam a memória de computadores e celulares. Ficou no passado o esforço que os nossos pais e avós faziam para registrar números de telefone, memorizar as datas que aprendiam nas aulas de história e as notícias importantes que não ficavam ao alcance das mãos com um toque ou um clique. Pode parecer que só temos a ganhar com os aparelhos eletrônicos fazendo esse “trabalho difícil”, poupando-nos de gastar horas a fio com todos esses conteúdos. Mas não é bem assim.

Confiar em equipamentos eletrônicos para guardar o que lemos, ouvimos e vemos não apenas nos torna dependentes deles, mas também faz o nosso cérebro perder o treino de gravar informações. Segundo a neurocientista cognitiva Maria Wimber, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, o hábito de buscar informações impede o acúmulo de memórias de longo prazo. “Nosso cérebro parece fortalecer a memória cada vez que a evocamos e, ao mesmo tempo, esquece as memórias irrelevantes que estão nos distraindo”, disse à BBC News.

De acordo com a pesquisadora, enquanto o processo de relembrar informações é uma forma eficaz de criar memórias permanentes, repeti-las de forma passiva, como quando as procuramos na internet, não cria memórias sólidas e duradouras. “Como a gente não tem praticado mais a habilidade humana de recuperar essa informação guardada, isso se perde. A pessoa não perde a memória, na verdade, ela não grava”, analisa a neurocientista Natalia Mota. Para ela, o problema está na falta de atenção e de motivação para consolidar as informações.

Uma percepção diferente do mundo

Quando pensamos em informações, é inevitável comparar o que elas representavam para as gerações mais velhas e o que significa para as novas. Será que há tantas diferenças como parece? A verdade é que o papel da informação não sofreu grandes alterações ao longo da história, já que ela sempre foi matéria-prima para produzir conhecimento, formar ou manipular opiniões e ditar comportamentos. Em outras palavras, depende dos usos sociais, políticos, estéticos e ideológicos que se faz dela em cada época.

Mas os meios usados para comunicar e informar as pessoas, estes sim, foram mudando com o tempo, com uma intensidade maior a partir da segunda metade do século 19. “A urbanização advinda com a Revolução Industrial foi acompanhada de uma intensificação das comunicações, com a invenção de novos meios —telégrafo, telefone, cartazes, imprensa ilustrada, publicidade, cinema, seguidos da invenção da televisão e, mais recentemente, da internet e telefonia celular integrada. Também podemos afirmar que uma democratização da informação acompanhou essa intensificação”, diz Rosane Kaminski, professora de história da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

A especialista explica que no passado as emoções, o senso de competitividade, a cobiça pelo saber, poder e status provavelmente eram parecidos com o que vivemos hoje. Isso porque a história é marcada por conflitos entre os povos, pela busca incessante de conhecimento e formas de dominação. Mas não havia um fácil acesso às informações, mesmo porque o índice de analfabetismo era gritante até o início do século 20. Como a escrita estava ao alcance de poucos, a maioria das pessoas era informada dentro de seus grupos familiares, nos rituais religiosos, na vida cotidiana, nos ambientes de trabalho e outros eventos sociais. Saber ler e escrever era um luxo das classes sociais mais abastadas. Eram elas que tinham acesso aos livros, jornais, filmes e programas audiovisuais.

Embora hoje as portas do mundo digital pareçam abertas para todos, a realidade é bem diferente. “Talvez hoje a informação pareça mais acessível do que foi em outros tempos, pelo excesso de consumo midiático, pela disseminação da internet como produto de ‘primeira necessidade’ e pela difusão dos computadores pessoais e smartphones. Mas essa facilidade de acesso não é comum a todos. A parcela da população excluída do mundo digital ainda é enorme”, compara a historiadora.

Ainda maior é a que não sabe o que fazer com tantos textos, áudios e vídeos espalhados por aí. “Pela primeira vez na história, a abundância e a velocidade das mensagens nos expõem a um problema inédito: no passado, sofríamos por carência; hoje, sofremos por excesso de mensagens. Na confusão causada pela fartura de informações, salva-se do desequilíbrio apenas quem é dotado de cultura sólida, que o permite selecionar as informações certas e assimilar e valorizar apenas as que são úteis”, diz o sociólogo italiano Domenico De Masi no livro Uma Simples Revolução (Sextante).

O autor lembra que esse é um problema de vivermos na “sociedade da informação”, expressão usada desde meados do século 20 para se referir ao conjunto de descobertas nos campos da matemática, física, engenharia e comunicação e que modificaram radicalmente o armazenamento, manipulação e transmissão de dados e informações. “Só uma informação cabal, fluida e exata consegue potencializar as energias de uma sociedade conectando-a entre si. Sem informação, nenhum ser humano pode se desenvolver e nenhum sistema social pode funcionar. Mas, quando a informação se transforma em um bombardeio excessivo como é hoje, o equilíbrio pessoal e o social correm sérios perigos”, reflete.

Falsa ou verdadeira?

Durante a pandemia da covid-19, uma palavra usada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) ganhou destaque nos noticiários mundo afora: “infodemia”. Ela se refere à propagação de desinformação, mentiras e rumores sobre o vírus. No entanto, as fake news estão por toda parte e correm em uma velocidade que nos deixa tontos. Mas por que tanta gente acredita nelas cegamente? Porque elas mexem com as emoções. São como iscas irresistíveis escondendo o anzol que está ali para destruir a verdade. É o que acadêmicos do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) constataram em um estudo feito em 2018: a probabilidade de as notícias falsas serem compartilhadas no Twitter é 70% maior do que as verdadeiras.

Mais uma vez a resposta para cair ou não em uma notícia falsa está no cérebro. “Primeiro é gerada a atenção e depois a emoção. Aquilo causa uma série de respostas hormonais e um alerta na pessoa, e a leva a decidir, de uma maneira mais ou menos impulsiva —dependendo da intensidade da emoção causada e dos próprios traços de personalidade —, se vai acreditar ou não naquela informação”, esclarece a neurocientista Natalia Mota. Ao acreditar na fake news, a pessoa a compartilha automaticamente, antes mesmo de pensar ou checar sua veracidade.

Normalmente são curtas, feitas com frases de impacto e linguagem simples, que qualquer um entende. Para completar, elas apelam para a emoção e mantêm sempre o mesmo padrão, utilizado para gerar uma identificação com determinados públicos. Seu conteúdo gera a ideia de que “faz sentido”, uma vez que a mensagem casa com a visão de mundo que a pessoa tem.

As mudanças constantes, desesperança, medos, inseguranças e estresse do mundo atual fazem muita gente ansiar por soluções mágicas, o que abre uma brecha para a manipulação de informações. É o que acontece com quem descobre uma doença grave, como o câncer. “No início, a pessoa usa terapias comuns. Mas quando o desespero bate, ela começa a acreditar em pirâmides, pó mágico etc. Porque a ânsia de viver sobrepuja a capacidade lógica de argumentação e de pesquisa. Em uma situação desesperada, ela se apega a qualquer coisa”, analisa o filósofo da Unicamp.

Essa busca alucinada por certezas e saídas funciona como um muro para as dúvidas que fazem parte do caminho do conhecimento. E a internet e as redes sociais estão ali, de prontidão, oferecendo curas e soluções fáceis. Para muita gente, questioná-las seria o mesmo que deixar ir embora uma tábua de salvação. “A busca pela sobrevivência e o desejo de saber está em todo ser humano. Quando ele tem esse alimento falso, que não alimenta a mente, mas que simplesmente é uma espécie de anabolizante, fica mal nutrido. A pessoa não consegue de fato ter uma autonomia de pensamento e nutrir a sua alma. Ela passa a ficar obesa de tanta informação. E faminta”, conclui Silva.

Sobra para a saúde

Os nativos digitais —que já nascem conectados — transitam pelo mundo digital de maneira mais tranquila que os mais velhos. Eles convivem melhor com a tecnologia por ter uma plasticidade cerebral maior para desenvolver essa interface com as máquinas, algo que é estimulado desde cedo. Mas nem eles são imunes aos efeitos maléficos do excesso de informações. Independentemente da idade, querer abraçar todas as notícias, conhecimentos técnicos e científicos e fontes de entretenimento como filmes e séries de TV pode levar ao adoecimento. É como olhar uma vitrine cheia de produtos igualmente interessantes e não poder levar todos para casa.

As consequências costumam ser de ordem emocional, como ansiedade, estresse, esgotamento mental, frustração, tristeza, preocupação e angústia. Às vezes vira um fardo tão pesado que pode levar à depressão. “Não diria que num primeiro momento uma pessoa tendo uma sobrecarga de informações ela começaria a ter depressão. Mas talvez a constatação da impotência para lidar com as demandas e pressões atuais, de não ver luz no fim do túnel, pode acionar esse gatilho emocional”, avalia Ana Maria Rossi, doutora em psicologia clínica e presidente da Isma-BR (International Stress Management Association no Brasil).

Além de abalar as emoções e elevar o nível de cortisol —hormônio relacionado ao estresse —, expor-se a montanhas de informações também pode provocar males físicos como cansaço, dor de cabeça, nas costas, no pescoço e no peito, desconforto muscular, hipertensão arterial, aumento da frequência cardíaca e diabetes, entre outras doenças inflamatórias. E ainda prejudicar o sono e a memória. “Não que a pessoa vai deixar de ter memória, mas ela fica ocupada com tantas informações que é como se faltasse espaço para acessar as memórias que precisa para as situações do cotidiano”, diz Renata Guerra, coordenadora do Programa Ambulatorial de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do IPq-FMUSP (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

É como um efeito dominó. “Num primeiro momento, a informação vai atingir a pessoa emocionalmente. Uma vez que ela afeta suas emoções, poderá ou não servir de gatilho para uma reação fisiológica. E com isso aciona também reações comportamentais”, diz Rossi. Em relação ao comportamento, quando a pessoa se sente incapaz de lidar com a situação, ela tanto pode ficar agitada quanto paralisada. Se for sugestionável, é ainda mais difícil, pois fica sem saber em que ou em quem confiar, principalmente diante de notícias inconclusivas. Sofre também quem se apega às informações como uma medida paliativa para preencher o vazio existencial, uma vez que não é possível camuflar essa dor por muito tempo.

Tudo isso causa um desequilíbrio interno maior do que se pode imaginar, sobretudo quando se trata de conteúdos que não fazem bem. “A saúde é afetada pela maneira como a gente se nutre, não só com alimentos, mas com hábitos e informações que chegam, com tudo o que os nossos órgãos do sentido captam. Quem só se alimenta de notícias negativas tem grandes chances de gerar afetos negativos dentro de si. E eles fazem mal à saúde mental quando são repetitivos e crônicos”, diz Guerra. Mas, sem dúvida, é a ansiedade que castiga mais, principalmente as pessoas que são ansiosas por natureza.

Elas vivem com a sensação de estar sempre devendo algo a si mesmas, pois nunca conseguem cumprir suas “metas de informação”. Quando não conseguem puxar o freio de mão, são tomadas pela culpa. Mesmo quem é aficionado por informações, como o Flavio Paulino, que abriu essa reportagem, pode experimentar seus efeitos nocivos.

“Fisiologicamente nós não diferenciamos as consequências do estresse negativo e do positivo. A frequência cardíaca e a pressão arterial são alteradas, o ritmo cerebral aumenta em termos de ondas cerebrais. Enfim, as reações fisiológicas são muito similares. O que diferencia são as reações emocionais, já que o estresse positivo traz satisfação, prazer”, explica Rossi. Ou seja, mesmo sentindo prazer, você ainda está sob efeitos hormonais negativos.

Não importa se a sua relação com as informações é de prazer ou de obrigação. Se elas não estão fazendo bem a você, fique atento. Não está tudo bem quando você não encontra tempo para estar com quem ama, aprender algo novo ou se dedicar a um hobby. Assim como não é normal perder a alegria e a paz. E não adianta tentar fugir desse incômodo, refugiando-se em bebidas alcoólicas, por exemplo. “Muitas pessoas sofrem por um tempo significativo pelo preconceito de procurar um tratamento ou por desconhecimento mesmo, de saber que aquilo é um transtorno. Elas não devem ignorar porque seria um sofrimento desnecessário. Hoje temos muitos recursos para tratá-las”, garante Guerra.

Filtre o que realmente é importante

  • Mude seus hábitos em relação às informações. O segredo não é consumi-las menos, mas de um jeito saudável. Assim como acontece com as dietas alimentares
  • Mantenha a atenção na informação que está na sua frente e procure evitar distrações. Assim, perceberá se ela faz sentido para você e terá mais facilidade para assimilá-la
  • Procure a fonte original. Quanto mais longe dela, menos verdadeira tende ser a informação. É a mesma lógica da brincadeira do telefone sem fio. À medida que a mensagem é passada de um para outro, pode ser manipulada de acordo com os interesses dos transmissores
  • Busque informações confiáveis e precisas. Além disso, reflita de forma crítica quando elas chegarem ao seu conhecimento. Com o tempo, isso acontecerá de forma natural e automática, como dirigir ou praticar exercícios físicos
  • Faça pequenos intervalos. É importante fazer pausas durante o tempo em que está consumindo a informação. Ficar horas seguidas na frente de uma tela, de um texto no papel ou ouvindo notícias pode fazer mal. Aproveite para se alongar um pouco
  • Não fique concentrado em informações “pesadas” por longos períodos. De vez em quando, deixe-se envolver por assuntos mais leves. Dessa maneira, você não se sentirá tão exausto
  • Encaixe bom humor no seu dia a dia. Não permita que as notícias ruins suguem completamente a sua energia. Rir, mesmo quando as coisas estão difíceis, ajuda a proteger a sua saúde
  • Avalie a quantidade de informações que você dá conta de consumir. Se for preciso, cancele a assinatura de revistas, jornais, TV a cabo, serviços de streaming ou deixe de seguir alguns perfis nas redes sociais
  • Contabilize as horas que você gasta consumindo informações. Seja no computador, seja no celular. Anote em um diário ou utilize ferramentas tecnológicas específicas para isso. Assim evitará os excessos e terá um melhor controle do seu tempo
  • Filtre as informações que recebe de amigos nas redes sociais. Muitas vezes elas não acrescentam nada e fazem você desperdiçar o seu tempo

Um descanso para a mente

Pollyana Ferrari sempre trabalhou com informações e, por isso, ficava conectada o tempo todo. Quando poucas pessoas viviam mergulhadas na tecnologia como hoje, ela já tinha três celulares. Isso no ano 2000. Logo notou que esse ritmo não lhe estava fazendo bem. “Para quê isso?”, perguntou-se. Então percebeu que não precisava abraçar o mundo tecnológico daquele jeito e começou a recusar benefícios que muita gente na época sonhava ter, como celulares corporativos. Assim foi construindo uma relação menos simbiótica com as demandas digitais.

Não que a pesquisadora de mídias digitais e professora comunicação digital da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) tenha virado uma eremita no que diz respeito à tecnologia. Mas faz uns bons anos que ela desliga o celular para dormir, silencia todas as notificações de suas redes sociais e já não fica apreensiva para dar um retorno imediato aos e-mails e mensagens que recebe no WhatsApp. “Se não for urgente, eu repondo no outro dia. Posso olhar meu e-mail duas vezes ao dia, não preciso ficar 24 horas online. Também faço paradas, fico uma semana sem olhar o Twitter, duas sem ver o stories ou o Instagram. Às vezes tiro todos os aplicativos do celular, principalmente nas férias. Depois é só voltar”.

Além disso, ela deixa o celular na bolsa enquanto está na rua e não o leva para a praia. Mesmo assim, consegue acompanhar as informações importantes e todas as pesquisas, algo necessário para o seu trabalho. E ainda sobra tempo para fazer o que gosta, como ioga. Pollyana aprendeu a escapar do lado sombrio da internet, feito de polarização, desinformação e doses excessivas de tragédia; e ler, ver ou ouvir apenas o que quer ou precisa. Se porventura fica estressada, não hesita em parar. “Faço pausas que chamo de pequenas férias durante o dia e fico em silêncio”. Para ela, é importante desfazer o glamour da vida conectada e acabar com obrigações que ela nos traz, como postar coisas nas redes sociais o tempo todo.

Hoje Pollyana estranha quem se deixa escravizar pela tecnologia. “Acho esquisito as pessoas desesperadas para responder uma mensagem na hora do almoço, quem responde no banho, quem precisa baixar a playlist de lavar louça e também falar com a amiga e ouvir o podcast porque não pode só lavar a louça. Sem demonizar nenhuma rede, nunca estamos no lugar em que estamos”, observa. Muitos de nós vivemos tão absorvidos pelas informações, seja em celulares e computadores ou fora deles, que nem enxergamos o que acontece ao redor. Não conseguimos equilibrar esses dois mundos, algo necessário para ter saúde. “Não tem uma fórmula mágica. É preciso estabelecer limites”, diz Ana Maria Rossi.

Não dá para fugir dessa sobrecarga de informações, que é uma marca do nosso tempo. A competitividade do mundo atual exige que a gente saiba muito e se supere de todas as formas para não perder o lugar ao sol. Mas sem esse limite podemos ficar doentes e diminuir ainda mais a produtividade. “Isso requer uma grande disciplina mental porque a tentação está ali. Sempre vai haver alguma coisa para olhar, mais um canal, mais um site. Então, a pessoa precisa avaliar o que é importante e limitar sua busca em cima disso, ou vai acabar se descontrolando”, adverte a psicóloga. Se essa tarefa for muito difícil, algumas medidas podem torná-la mais leve e possível.

Guerra afirma que o mais importante é administrar bem o tempo. Isso significa ter uma alimentação equilibrada, relações sociais saudáveis, fazer algo que ajude a lidar com o estresse —como meditação, mindfulness ou outras ferramentas terapêuticas —, praticar atividades físicas e não subtrair o tempo do sono. “Se a pessoa distribui a atenção entre esses cinco pilares, vai administrar o tempo de maneira mais inteligente”, assegura a psiquiatra. Exercitar a espiritualidade e não fazer nada de vez em quando também ajudam a calibrar as emoções, além de reencontrar o equilíbrio e a saúde. Esses recursos nos tornam mais fortes para enfrentarmos as situações difíceis e ver soluções onde elas parecem não existir.

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