100 anos da nossa revolução cultural

Publicado originalmente em Brasil de Fato por Cida Pedrosa. Para acessar, clique aqui.

Exatamente nesta semana de fevereiro, há 100 anos, o Teatro Municipal de São Paulo sediava uma das mais emblemáticas manifestações culturais já ocorridas no Brasil: a Semana de Arte Moderna. Esse evento revelou grandes nomes nas artes e nas letras e trouxe à luz um dos mais importantes movimentos literários do país, o modernismo. A partir dali, o país ganharia uma espécie de identidade nacional no campo da cultura. E como tudo que é novo, enfrentaria muitas críticas e resistência.

À frente do evento estavam Mário e Oswald de Andrade que, ao lado de Manuel Bandeira, viriam a se tornar os principais ícones do movimento modernista. Durante uma semana, o público pôde apreciar as pinturas de Anita Malfatti – que já tinha feito uma exposição de sua obra e 1917, duramente criticada por Monteiro Lobato – , Vicente do Rego Monteiro e Di Cavalcanti, entre outros talentosos artistas, e acompanhar conferências e saraus com escritores do quilate de Graça Aranha e Menotti del Picchia. Isso sem falar na trilha sonora de Ernani Braga e Heitor Villa-Lobos.

Acusado de ser um movimento elitista, formado por intelectuais arrogantes – principalmente após a definição por Oswald de Andrade como algo tão sério “que é capaz de educar o Brasil e curá-lo do analfabetismo letrado” –  e sintonizado com os interesses do governo de São Paulo, que buscava se reposicionar no cenário nacional depois de ser alijado do programa político federal, o modernismo também era encarado  como um movimento “futurista”. Como lembra o pesquisador Evando Nascimento, pela primeira vez o “relógio do império da cultura nacional” (frase de Oswald) se deixava acertar pelo horário da vanguarda internacional.

Polêmicas à parte, o grande impacto da Semana de Arte Moderna para a literatura foi proporcionar liberdade de criação a partir de um ponto de vista nacional. Não há como pensar a literatura produzida no Brasil no século 20 sem levar em conta a Semana de Arte Moderna, que foi um divisor de águas para a produção cultural no país. 

Óbvio que o movimento teve um aspecto elitista, já que os integrantes eram oriundos da elite cultural de São Paulo. Mas não dá para negar, por exemplo, o impacto positivo do evento na poesia do pernambucano Ascenso Ferreira, o mais modernista dos poetas brasileiros.

Como todo movimento de ruptura, a Semana teve excessos e equívocos, mas teve, principalmente, o grande mérito de criar uma linguagem poética brasileira e outras formas de arte, sem estarem, necessariamente, ligadas a elementos da tradição europeia. 

A Semana de Arte Moderna não foi somente um projeto literário, artístico. Foi, acima de tudo, um projeto de modernidade nacional. A partir dali, as pessoas passariam a entender que não poderia haver um país sem ciência, sem educação, pois a modernidade é a possibilidade de um projeto nacional, desenvolvimentista, que não pode prescindir do conhecimento para se realizar.

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